terça-feira, 31 de maio de 2016

One flew over the hummingbird's nest (30/05/16)

Another day another dawn. Mais uma vez acordada pelo nascer do sol na casa da luz vermelha. Já calejados, os intrépidos viajantes arrumam as (múltiplas) mochilas em tempo recorde, e partem para mais um pequeno almoço fabuloso servido no terraço do Hostel. Triplamente reforçado, em parte por causa do apetite, em parte porque saltar o almoço como prevenção do vómito aéreo acrobático em Nazca era uma opção real.
Já com tudo arrumado, fomos tratar do transporte para a estação de autocarros. Infelizmente não encontrei o senor José (provavelmente a descansar do fim de semana de trabalho árduo) mas sim uma não-José não muito simpática e sem grande vontade de fazer esforços para nos ajudar. Em resposta ao nosso pedido de transporte saiu até à rua e chamou um táxi. Um Daewoo Matiz onde mal cabiamos nós quanto mais as mochilas. Nem com a ajuda da pessoa que consegue enfiar 15 palhaços num Mini dos antigos. E pior ainda, não percebeu porque é que ficamos a olhar para ela feitos parvos. Enfim, nada que não se resolvesse com mais um táxi (pedido por nós, porque ela continuava sem perceber o problema).
Na estação de autocarros tudo tranquilo, apanhamos o autocarro para Nazca de uma das companhias locais. Inicialmente um pouco preocupada com a possibilidade de perder ambas as pernas por isquėmia (eu e a cara metade ficamos sentados nos dois lugares logo atrás do motorista, com muito pouca margem de manobra), lá consegui encontrar uma posição quase não dolorosa. Logo que saímos da estação, comecei a ficar apreensiva com outro problema: o suposto autocarro quase directo, com apenas uma paragem, afinal foi parando inúmeras vezes, para o assistente do condutor tentar recrutar novos passageiros gritando "Naaaaaaazcaaaaaaaa!!!!!" pela porta aberta. Felizmente isso acabou juntamente com os limites da cidade.
Depois que acabam as casas, começam as dunas de ambos os lados da estrada, de areia cinzenta, que são substituídas por montanhas castanhas que parecem feitas de cascalho, e depois o deserto. Só aridez de ambos os lados da estrada. Por vezes com aquilo que parecem definições de terreno, quadrados marcados com arame farpado. Para quê serve esta terra, não sei. Mas alguém quer assegurar-se que ninguém a toma.
Passado algum tempo, voltamos às montanhas áridas. E de repente, após uma curva em cotovelo assustadora, uma mancha verde. No vale entre as montanhas, uma zona fertil, cheia de arvores e plantações. Pelo nome, Rio Grande, e pelo leito de um rio que atravessamos imagino que seja para onde escoa toda a (pouca) água que cai nas montanhas circundantes. Estes pequenos oásis no fundo dos vales repentem-se de tempos a tempos no caminho, mas não chegam para apagar a sensação de aridez, secura e pó que se sente neste trajecto.
Chegados a Nazca, logo nos apercebemos porque é que o senhor das Alas Peruanas se tinha oferecido para nos buscar à saída do autocarro quando reservamos o vôo sobre as linhas. O escritório deles é no outro lado da rua. Simpaticamente nos ofereceu o hotel ao lado (também propriedade deles) para quartel-general: sítio para guardar mochilas, wc e sofás para aguardar tanto o vôo como o night bus para Arequipa (próximo destino).
Depois de tudo tratado fomos procurar almoço. O senhor tinha-nos um restaurante local chamado Lemón y Sazón, ao fundo da rua. Nós bem que procuramos, mas dada a inexistência de placas assinalando o nome dos vários"comedores" na rua optámos só por aquele com melhor aspecto. E que afinal até era o certo. Comida local feita por locais para locais. Sem muitas opções, em versão menu de almoço. Eu optei por um "res seco" que se revelou um cordeiro muito tenrinho afogado num molho verde saboroso e arroz branco. Sem pretensões, mas com gosto de comida caseira. Fez-me lembrar a comida da minha mãe, até no tempero.
Daí fomos descansar um pouco no hot, preparando-nos mentalmente para o vôo, que já não tinha sido descrito de forma deveras desagradável.
Uma vez no aeroporto, momento humilhante: pesagem pública. Ao que parece os senhores não acreditam nos pesos aproximados que nós fornecemos previamente. E com alguma razão. Pelo menos 3 elementos (eu incluída) falharam por 3-4kg em defeito. A comida peruana pode ser boa, mas não 3kg-em-3-dias boa. Na minha opinião, balança mal calibrada.
Em breve chegou o nosso co-piloto, outro José simpático, carioca de nascimento mas peruano de criação, que nos explicou os pormenores do avião e do vôo. Entramos na pequena avioneta (piloto,copiloto e 4 passageiros). Tive um breve momento de hesitação ("isto não parece boa ideia, esta porta é ridícula, vou cair no meio do deserto"), mas que passou assim que levantamos vôo e me debruçei sobre a paisagem.
Nazca não é definitivamente uma cidade bonita. De cima parecia uma favela camuflada, edifícios inacabados, precários, e da cor do pó das montanhas. Apenas um ou outro apontamento de cor, casas pintadas mas que se adivinhava que rapidamente passariam também ao castanho pó.
E ao fim de alguns minutos, depois de sobrevoarmos uma planície repleta de plantações (como?como?), chegamos ao deserto. Não tinha noção que as linhas estavam tão próximas da civilização, e que eram atravessadas pela estrada Pan-Americana. Nem que eram tantas. Para além dos desenhos, inúmeras linhas, triângulos, rectângulos, todo o deserto coberto deste grafitti. Quase poluição visual. Entre deserto e montanhas dispersas pelo seu meio e à distância, vários tons de vermelho e castanho. Os geoglifos são fáceis de identificar, principalmente com as indicações e referências dadas pelo co-piloto. As viragens quase verticais para que ambos os lados do avião tenham uma boa visão das figuras fazem-se sentir, mas nada do cenário temível que me tinham pintado. Macaco, aranha, astronauta, beija-flor, os geoglifos sucedem-se rapidamente, quase seguidos. Impressionam pela dimensão e exactidão. Como foram feitos? Compreendi porque é que todas as imagens que vi da Maria Reiche, a arqueóloga e matemática alemã que foi a primeira estudiosa das linhas mostram uma senhora um tanto mal encarada. Uma vida inteira a tentar encontrar uma explicação matemática e astronómica, altamente científica, e depois chegam outros que dizem simplesmente "alienígenas", e parecem ter mais razão.
O facto das linhas serem cruzadas pela Pan-Americana faz doer o coração, principalmente a cauda do aligator que é literalmente atravessada por ela, como se tivesse sido atropelado ao tentar passar. Ao que parece, a estrada foi idealizada antes de compreenderem a verdadeira dimensão e importância das linhas. Mesmo assim, dá pena.
Os trinta minutos do voo passam a voar (hehe). Para desilusão minha, ninguém utilizou os saquinhos de plástico estrategicamente localizado no avião. Mas um dos elementos saiu pálido e combalido, necessitando de uma água das pedras, domperidona e mini-sesta para recuperar a cor.
De volta à Nazca, primeiro recuperamos forças com crepes e gelado. Depois fomos comemorar o facto de não termos morrido (e o aniversário do 4o elemento, embora tenha sido acordado que a comemoração oficial será em Arequipa) provando finalmente o famoso Pisco Sour. Sabor semelhante ao da caipirinha, mas com menos gelo. E escorrega igualmente bem. O factor impeditivo de tornar um em vários foi o medo do mal da altitude no destino seguinte...
A seguir, estivemos a fazer tempo, entre restaurantes e o hotel, à espera das 22h para embarcarmos na etapa seguinte da nossa aventura: night bus to Arequipa. São só 10 horinhas...

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Desert Living (29/05/16)

 Na segunda manhã no Peru, uma constatação: aqui ninguém ouviu falar de persianas. Acordada às seis da manhã por um nascer do sol lindíssimo, tornado ligeiramente pornográfico pelas cortinas vermelhas do quarto, mas na minha opinião um tanto desnecessário. Queria dormir mais um pouquinho... mas tb não houve problema, porque despertei rapidamente com o banho de água fria. Mais uma das must have experiences do Peru: hostel sem água quente. Voltamos a chatiar o senor José (que no final desta viagem vai com certeza ter uma bela gorjeta), que nos assegurou que no final do dia o problema estaria resolvido.
 A manhã  deu-nos a conhecer a vista envolvente. Melhor descrição: parece que estamos em Homs. Casas de tijolo semi-construidas/destruidas, pó, pó pó. Resolvemos então voltar a vista para o interior, onde o pequeno almoço (digno de hotel) era servido num terraço no terceiro piso muito engraçado, com direito a ainda um skybar no piso seguinte. Fancy. As vistas mais altas dizeram-me perdoar a cidade. De um lado o deserto, do outro as montanhas. Ambos a tentarem devorar a cidade. Pelo meio muito edifícios baixos, umas quantas cúpulas dispersas, e uma nova vontade de conhecer a cidade.
 Em modo pessoas altamente produtivas, num esforço conjunto resolvemos autocarro, hostel e programinha turístico para as próximas 24 h. O dia de hoje já estava acordado, graças ao senor José (um santo): tarde no oásis de Huacachina, com direito a passeio de buggy nas dunas.
 Ao sairmos do hostel apercevemo-nos que afinal estávamos num bairro residencial bastante engraçado, mas de gente poupada: só as paredes exteriores é que estão pintadas, o que explica o aspecto inacabado visto de cima.
 Fomos pela rua principal em direcção ao centro. A primeira impressao é que todos os veículos são taxis: carros normais assim identificados, os ticos (uns carrinhos pequeninos que parecem carrinhos de choque, com antenas na parte traseira, muito chuning, luzes coloridas) e os mototaxis (são tantos que parecem enxames). Todos buzinando alegremente, ainda não percebi com que objectivo. Nao é para angariar clientes, porque muitos estão ocupados. Não é para avisar que vão avançar, porque também buzinam parados nos semáforos. Enfim, acho que é só pelo prazer de buzinar...
 A avenida San Martin, uma das principais, tinha uma vida surpreendente para um domingo num país católico. Um trânsito perfeitamente caótico, onde atravessar a rua é uma aventura. Alguns restaurantes com bom aspecto, lojas, um mercado cheio de fruta apetitosa (e onde o segurança se passeava com ar de poucos amigos com um bastão de basebol curtinhos na mão), e no fim a igreja de San Martin, onde descobrimos que havia uma festa religiosa qualquer que ninguém nos soube explicar (Corpus Christi?), Com direito a igreja a rebentar pelas costuras, procissão e vários grupos de jovens a enfeitarem as ruas com desenhos feitos com giz, flores e terra. Muito bonito e colorido, enfeitando as ruas até à Plaza Mayor (a versão loc do Rossio, todas as cidades têm uma). Aí perto está a Catedral, em ruínas. O terremoto de 2007 deixou-a a abanar, o de 2010 fez ruir a abóbada do tecto e parte das torres. Aliás, como aconteceu com vários outros edifícios, o que explica o sentimento de devastação que se sente em algumas partes.
 Em modo turístico fomos avançando em direção a outra abóbada (igreja de santa Maria), prestes a entrar numa rua manhosa, quando fomos abordados por um agente da autoridade que nos sugeriu simpaticamente que fôssemos para outro lado. Ao que parece aquela zona não era muito turist friendly, com um risco elevado de ficarmos sem máquina e mochilas. Na realidade já estávamos cansados, era quase meio dia e nem a rua nem a igreja pareciam assim tão interessantes, portanto resolvemos voltar para o hostel. Como? De moto táxi, é claro. Eu já estava preparada para regatear e pedinchar para irmos os quatro no mesmo mototaxi ( o que me parecia difícil, tipo 15 palhaços num Mini dos antigos), mas o senhor respondeu prontamente que sim, e deu um preço irrisório. Portanto, lá fomos nós, em modo apertadinho, no meio do trânsito maluco, prepararmo-nos para o deserto.
Com uma pontualidade britânica, o senor José estava pronto para nos levar até Huacachina, o oásis. Uma viagem rápida, 5 min, mas de um mundo para outro. As casas são rapidamente substituídas por areia. E de repente, demasiado perto da civilização para o meu gosto, aparece o oásis. À primeira vista, desilude um pouquinho. Demasiados postes de electricidade, demasiados carros. Mas uma vez lá perto tem um certo charme decadente, semelhante ao que eu imagino que se veja em Havana (sensação confirmada pelo 4o elemento, que já lá esteve). Uma laguna rodeada de arvores, umas quantas palmeiras para fazer jus ao nome de oásis, rodeadas de duas linhas de casas térreas em diferentes estados de conservação. Ainda um pouco desiludidos saímos do carro e fomos à procura de comida. Apesar das multiplas solicitações, ganhou um restaurante mesmo em frente à laguna. E quando finalmente nos sentamos, bum! Uma vista completamente avassaladora da laguna com uma duna gigante (que até então tinha estado fora do nosso campo de visão). Novo sentimento: afinal este sítio vale totalmente a pena. E o almoço? Servido por um empregado simpaticissimo (que gritava constantemente a nacionalidade das mesas para identificar as mesas), e que nos recomendou três pratos criollos, todos deliciosos. Que como tantas outras coisas, me lembrou Minas Gerais: feijão, carne seca, arroz.
Depois de duas horas comendo e vendo aventureiros mais obstinados do que nós a subir a duna em frente (e a tecer comentários acerca das suas habilidades a descer com as pranchas de sandboarding, sempre ligeiramente desiludidos quando não caiam espetacularmente), decidimos aproveitar a piscina que estava incluída no tour. Lugar agradável, com espreguicadeiras e toldos. E água que apesar de azul era muito pouco apetecível. Alguns corajosos molharam os pés, mas não passaram disso.
Assim chegaram as 16h, hora combinada para o tour de buggy pelas dunas. Confesso ter-me aproximado dos buggies com alguma apreensão. Estava na posse de demasiada informação sobre acidentes nas dunas com condutores demasiado aventureiros, e nosso condutor não despertava grande confiança (ar amalucado, com uma coluna gigante na parte traseira do buggy a bombar martelinhos), e o próprio veículo em si não acalmava as minhas ânsias… mas f@#% it, YOLO. E lá seguimos, num veículo que não destoaria num filme do Mad Max, em direcção à areia.
Os primeiros 50m foram suficientes para saber o que me esperava. Lá porque estava num buggy com 1o lugares o condutor não ia deixar de ser um confutor peruano, fazendo ultrapassagens assustadoras, passando entre carros estacionados com 3cm de folga de cada lado, enfim, o costume. Agarrei-me ao cinto e pensei só que o meu seguro de viagens é bom.
A viagem foi mais montanha-russa do que montanha de areia. Curvas apertadas, subir e descer dunas quase verticais, mas nesta fase inicial a inalar e ingerir uma quantidade mínima de areia. Para quem nunca esteve no deserto,como eu, experiência bastante alienígena. Passados poucos minutos paramos para a foto. Ai sim o cenário parecia saído de um qualquer filme sobre uma realidade pós -apocaliptica. Música electrónica a bombar (graças ao nosso buggy), vários buggies estacionados juntos enquanto outros ainda aceleravam pelas dunas próximas e longínquas. E no horizonte de um lado areia, do outro a cidade e as montanhas. Lindo. Depois das fotos obrigatórias, mais uns aceleranços e curvas apertadas até ao cimo de uma duna, onde estacionamos em equilíbrio precário. De repente vejo pranchas de sandboarding. Primeiro pensamento:”Hell no!” Outra vez, o problema de ter demasiado informação. Bracos, perna e colunas que perderam a luta com a areia. E as minhas mãozinhas de cirurgião? Não estava com grande vontade de arriscar, até porque empoleirada no cimo da duna o final ficava longe e a inclinação me parecia quase vertical. Depois de me armar em cocó durante alguns minutos (e de ver as primeiras cobaias chegarem vivas e incólumes lá abaixo), deixei-me convencer pelos meus intrépidos companheiros de viagem. 1o passo: esfregar a parte de baixo da prancha com cera de vela. 2o passo: mandar às urtigas qualquer bom senso. E lá fui eu. E foi brutal. Boca bem fechada para não comer areia, cotovelos juntos e pernas afastadas de acordo com as indicações do guia, a descida durou apenas uns instantes, mas todos eles recheados de adrenalina. É o que dá ser uma menina trabalhadora da cidade, com uma vida pacata. Qualquer coisinha me parece uma aventura. Para os junkies de adrenalina isto só deve valer a pena se estiverem em pé numa prancha puxada pelo buggy, mas para mim chegou.
Depois, a parte ranhosa. Subir a duna seguinte com a prancha às costas, e voltar a descer. Novo momento de cocózice, “ só vou se empurrada por uma pessoa com qualificação”, que também passou rápido (acho que corri sérios riscos de ser empurrada pela cara-metade, preparada ou não, possivelmente até sem prancha), e lá fui novamente. As duas horas passaram rápido, quase sem nos darmos conta, entre descidas de dunas e sermos levados até às dunas seguintes. Próximo do pôr do sol tivemos direito a emoção à séria, servida com uma refeição de areia. Rapidamente percebemos porque. Para chegarmos no momento ideal ao local ideal para ver o pôr do sol no deserto. Incrível. Mesmo que o resto do dia não tivesse sido fabuloso,valeria a pena por aquele pôr do sol.
Daí volta rápida para o hostel (outra vez com o fofinho do senor José), para um banho merecido (e quente! ), onde foi quase possível retirar a areia que se tinha infiltrado em todo o lado.
Aventura seguinte: encontrar um local para jantar. As recomendações do senor José cruzadas com o tripadvisor le aram-nos para um restaurante a 8 quarteirões do hostel, Forja. O caminho para lá foi tranquilo, apesar de uma certa apreensão (outra vez, penso que devido a ter lido demasiado sobre os perigos de viajar no Peru).  No entanto, não fiquei muito descansada quando vi o portão trancado que separava a porta da rua do restaurante da sala de jantar. Enfim, a comida estava boa, o empregado era muitíssimo educado, mas éramos as únicas pessoas no restaurante, estava frio (está aberto para o exterior numa das paredes), a TV estava aos berros (debate presidencial, ainda vamos estar aqui no dia das eleições), e juntando a tudo isso sono, cansaço e um elemento fora de forma prestes a virar o barco (falso alarme, ainda não foi desta que sucumbimos à GEA do viajante), comemos e fomos rapidamente para casa.
Os homens corajosos do grupo ainda tentaram procurar um sítio onde finalmente beber um pisco sour, mas a busca foi infrutífera. E assim, ainda a tentar curar o jetlag, estávamos todos a dormir às 22h.

On the bus, part I (29/05/16)

A chegada a Ica após 4 horas de viagem foi violenta. Todos os viajantes vinham dormindo o sono dos justos (ou dos jetlegados), quando de repente o autocarro trava, as luzes acendem, e uma voz estridente grita algo que não consigo perceber. Com um olho aberto e outro fechados saímos aos tropeções. Uma chamada rápida para o hostel informou-nos que o senor José estaria em breve na estação para nos buscar. Surgiu a dúvida depois de como o reconheceríamos. Segundo os guias e várias pessoas, incluindo uma senhora simpática que nos viu na estação com um ar perdido/adormecido, não é boa ideia apanhar qq táxi, e que a artimanha de dizerem que são o transporte que foi enviado pelo hostel também é frequente.  Depois os neurónios começaram a comunicar uns com os outros e nos apercebemos que éramos os únicos totós cheios de mochilas na estação de Ica à meia noite...
 Depois de mais um jogo de tetris (com direito a batota, duas malas foram amarradas ao tejadilho), seguimos em direcção ao hostel. A cidade à noite não se deixa conhecer, mas lembrava-me um pouco Minas Gerais profundo. Casas térreas, muito tijolo, grades nas entradas. Nao deixou grande impressão, apenas que o hostel parecia estar longe de tudo. Nada de novo, já o sabíamos pela pontuação do booking...  O hostel foi uma boa surpresa, um edifício novo, com uma decoração meio casa de meninas/angolana (striving for design but not quite getting there) e pasme-se, ao contrário de um quartinho simpático com 2 beliches, tivemos direito a um apartamento com 2 quartos, wc, sala e cozinha, por meros 27€/noite. Total, não por cada um. Não percebi a razão do upgrade, mas também não ia reclamar.
 Enquanto desempacotavamos as malas, primeiro stress a sério da viagem (para além dos meus aneurismas e úlceras  por não ter tudo tudo tudo organizado): o e-reader da minha intrépida companheira de viagem tinha ficado na bolsa do autocarro. Tentamos ligar para a companhia, mas nenhum número funcionava/atendia. Em versão Hail Mary Pass fomos acordar o senor José e pedir-lhe para nos levar novamente à estação para tentar ver se conseguíamos recuperar o precioso bem (viagem sem livro sucks). Uma vez lá, arranhando um portunhol e fazendo muitos gestos, o segurança acabou por compreender o que queriamos. Festival de boa sorte: o autocarro ainda estava na estação (era a estação terminal), ainda não tinha sido limpo, e o e-reader lá  estava, quietinho, à espera da dona. Mais um episódio para provar que os deuses querem que esta viagem corra bem. Ou que talvez estejam apenas a enganar-nos para já e depois nos façam rolar pelas escarpas do caminho inca abaixo como sacrifício humano...

domingo, 29 de maio de 2016

The Lima Experience (28/05/16)

 Nestas férias estou a tentar uma abordagem diferente, ser uma pessoa diferente. Os primeiros dez da viagem não foram planeados. Quer dizer, foram totalmente planeados na minha cabeça, mas não fiz nenhuma reserva. Nada de hotel, transporte, tours. Nada. O que quase levou o meu control freak self à loucura. Numa tentativa de apaziguar os meus inner demons acabei por over prepare tudo o resto. Nomeadamente a chegada a Lima, pelo que tivemos direito ao pacote Rock Star, com um senhor simpático segurando um cartaz com o meu nome logo à saída das chegadas, para nos levar ao hostel.
 Primeira impressão da cidade, assim que saímos do aeroporto: cinzenta, não abafada como eu estava à espera, e feia. A viagem até ao hostel foi perfeitamente alucinante. Apesar do seu aspecto calmo e fala tranquila, o nosso condutor era uma verdadeira barracuda da estrada. Mas pelo que percebi essa é e a única forma de conduzir em Lima. Na estrada do aeroporto para o centro não existem faixas, e todo e qualquer espaço disponível é imediatamente ocupado, se não for por alguém dessa mesma faixa será por um dos vizinhos do lado. Ziguezague alucinante, com demasiados encontros quase imediatos com os carros vizinhos. Felicíssima por nem sequer ter trazido a carta de condução, seria devorada pelos outros condutores em menos de 30 segundos...
 Lima tem 10 milhões de habitantes, é uma mega metrópole, e tudo fica longe. Quarenta minutos depois lá chegamos ao Hostel, um sítio muito simpático no também simpático bairro de Miraflores. Malas rapidamente abandonadas e partimos para caçar o jantar.
 A 5min do hostel fica a Plaza Kennedy, suposto hub de restaurantes. Após dez minutos a ver as montras não resistimos mais e acabamos por ficar no primeiro que tinha um ar composto boa clientela. Apesar de estarmos na "Calle Pizza" (o que descobrimos no dia seguinte), jantamos um pouco original mas saboro frango assado. Primeiro contacto com cerveja local, "Cusquena", não muito agradável: cerveja saborosa mas servida quente...
Em versão zombie voltamos para o hostel, onde depois de 5 min a tentar encontrar coisas nas (muito maiores que deveriam ser) malas, colapsamos em grupo.
 Na manhã seguinte, pasme-se, não fui a primeira a acordar. Nada como duas noites muito mal dormidas para desactivar o despertador interno. Pequeno almoço fabuloso, com granola e manteiga de amendoim caseira. E direito a ver um kaclla, ou cão pelado peruano, que segundo a minha intrépida companheira de viagem parecia um rottweiler careca com vitiligo.
 Uma vez nutridos, começou a brincadeira (não muito engraçada na minha opinião) de tentar marcar as coisas para a próxima noite. Após o passeio inicial por Lima, e depois de descobrirmos que não havia quartos disponíveis no hostel para uma segunda noite, resolvemos passar para a etapa seguinte da viagem, Huacachina, o oásis. Só que estes putos mimados de países europeus já se esqueceram do que é não ter internet disponível 24/7. Portanto depois de não ter conseguido a reserva para o local que eu queria ainda aproveitando o WiFi do hostel seguimos em direção à praça Keneddy para comprar os bilhetes de autocarro e seguir para um walking tour da cidade, armados de um número de telefone local e um cartão telefónico peruano. O único problema foi o facto do número de telefone não estar aparentemente atribuído... mas enfim, como intrépidos viajantes que somos, resolvemos seguir em frente e tratar disso depois. O que quase me provocou um aneurisma, mas um dos objectivos desta viagem era turn the control freak down...
 Seguimos então para um walking tour com a Nina da Bandana Tour (que ao contrário do que referia no flyer não trazia uma bandana na cabeça). Embora não tenha sido um dos melhores que já fiz, foi uma maneira simpática de conhecer o centro histórico da cidade, juntamente com um estudante de Medicina (coincidência) holandês chamado Dolph, que estava a viajar há 6 semanas e iria continua mais umas quantas (inserir palavra feia para demonstrar inveja). O caminho até ao centro só demonstrou que ir embora no mesmo dia era uma boa ideia. A cidade não é bonita, feia, cinzenta, com prédios sem arquitectura e aqueles que têm uma bonita arquitectura a cair de podre.
Plaza de Armas, Palácio da Presidência, Catedral (na frente da qual fomos quase trucidados por Cocó de pássaro, porque aqui os pombos são substituídos por abutres). Check check check. Tentativa de visitar a Igreja e Mosteiro de São Francisco frustrada pelas multidões de famílias e meninos com uniforme escolar em peregrinação por causa do Corpus Christi, e também por falta de tempo (era catacumbas do mosteiro versus Museu Larco...). As ruas do centro poderiam ser bonitas, mas a maioria estava num estado de degradação triste. Segundo a guia existe um projecto municipal para recuperar os mais de 600 balcões (varandas) do centro, mas ainda estava em fase embrionária.
 Depois do tour, a primeira experiência gastronómica peruana: almoço no Los Coreanos, o restaurante mais antigo de Lima, onde a inteligentzia se reúne para discutir e para ser vista. A inteligentzia é inteligente: ceviche maravilhoso, seguido de uma jalea mixta, que é uma espécie de fritada mista de marisco panado. Tudo lindo, e delicioso. Os outros pratos que passaram por nós pareciam igualmente deliciosos, e agradáveis à vista. Mas não havia estômago para tudo...
 Depois do almoço, aquele momento que todo o viajante do primeiro mundo conhece: a procura do Starbucks para aceder à net. Lá conseguimos fazer a reserva para essa mesma noite, não em Huacachina (tudo o que era acessível esgotado), mas em Ica, ali mesmo ao lado, por um preço altamente apetecível (pagamos por duas noites quase o mesmo que pela noite em Lima).
Daí seguimos viagem para o Museu Larco (sniff sniff também queria ver as catacumbas). Um pequeno apontamento sobre os táxis em Lima: não tem taxímetro, e existem em vários níveis de legalidade. A guia disse,-nos um valor aceitável para nos levarem até ao Museu, e lá fomos nós negociar. O nosso quarto elemento é um born negotiator who drives a hard bargain. Quando o primeiro taxista se recusou a baixar o preço pela segunda vez (o primeiro valor foi o dobro daquilo que era suposto) simplesmente disse "isso é inaceitável" e foi embora. Nota mental: leva-lo comigo da próxima vez que for procurar casa.
 A viagem até ao Museu só serviu para termos a certeza que a decisão de só ficar um dia em Lima foi a melhor. Tirando os edifícios do centro não havia muito mais beleza na rua.
 A meio do caminho para o Museu começamos a ponderar se a decisão de apanhar um táxi na rua, sem grande segurança, tinha sido a mais acertada. Meia hora de caminho, em bairros cada vez mais residenciais, levou-nos a pensar que se calhar era melhor ligar o GPS. Mas de repente, como uma visão, aparecem os muros brancos do Museu Larco. No meio do cinzento de Lima o museu parece uma visão. Muito chique: porta fechada para a rua, seguranças com um ar armado à porta. Lá dentro tudo florido, limpo, arrumado. E o acervo do Museu fabuloso: tudo o que você sempre quis saber sobre as culturas pré-colombianas mas nunca lhe ocorreu perguntar. Uma sala particularmente interessante, dedicada aos sacrifícios humanos das várias culturas indígenas. Ou não fosse eu uma apreciadora de gore... noutro edifício, uma das razões porque o museu é conhecido: a galeria erotica. Por motivos profissionais tirei várias fotografias (penso que aquelas representações da anatomia masculina podem vir a enriquecer apresentações sobre o assunto), e cheguei à conclusão que não se inventa nada de novo sobre a terra há muiiiiiiiito tempo...
 Já em modo de despedida, fomos do Museu para Miraflores. Pizza manhosa para jantar, porque o tempo escasseava (para qualquer lado onde se vá demora-se quarenta minutos), hostel rapidamente para buscar as malas (e tentar fazer uma festinha no Pisco, o cão pelado, que me rosnou e tentou morder), táxi (mais um momento em que todos os jogos de tetris serviram para alguma coisa, 4 mochiloes e mais tretas na bagageira de um carro normal) e finalmente terminal rodoviário.
 Depois de passar por um controle de segurança que humilha vários aeroportos lá entramos num belo autocarro nocturno, com 50x mais conforto que o avião. E tudo o resto é história, porque nem me dei conta do autocarro sair da estação às 19:30, só acordei já em Ica...

Are we there yet? Are we there yet? (27/05/16)

 Picking up where we left, as 5h de esperas no CDG passaram rápido, graças  à companhia agradável, WiFi gratuita, poltronas fabulosas e ao museu do terminal E (exposição interessante sobre porcelana de Sevrès). O rendez vous com o quarto elemento foi tranquilo. Nada como combinar previamente e ter acesso a formas de comunicação não extraordinariamente caras. Ao que parece aprendemos alguma coisa desde a última aventura no outro lado do mundo...
Uma vez no avião, começaram os bons auspícios desta viagem. Os 20€ pagos para escolher os lugares valeram a pena: por alguma razão o 3o lugar dos 3 da fila onde nós estávamos não foi atribuído a ninguém num voo que estava praticamente cheio. Perks de ter cedido à chantagem da AirFrance... Direito a perna esticada, duas almofadas e não ter que acordar um estranho cada vez queria fazer xixi. Nice. 
 Entre sestas, filmes e o guia de viagem as doses horas passaram não a correr, mas num speed walking bastante aceitável. 
 Finalmente, Lima. Ao contrário do habitual, desta vez não tive dificuldades em entrar assim-assim no modo férias desde o momento em que saí do hospital. Ficaram algumas pendências, empurradas para um cantinho do cérebro, ocupando pouco espaço mas mesmo assim lá. Mas saindo o avião, todas as últimas preocupações lisboetas (trabalho, possiveis erros de preenchimento do IRS, a luz de alarme estúpida que insiste em acender no meu carro) ficaram lá. Para serem recuperadas no voo de volta certamente, em modo pânico, mas por enquanto vou viver em negação e curtir as férias carefree.
 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Half (sort of) way there (27/05/16)

 Mais uma aventura que começa com o final de um banco. Desta vez com quase 24h entre sair do hospital e entrar  no avião (quase...). But practice makes perfect. Mala praticamente feita vários dias antes, faltando apenas alguns pormenores de última hora. Pensava eu... Apesar do esforço prévio, o suposto dia de relaxamento antes da viagem foi passado em lufa lufa, a repetir em conjunto com a cara metade tudo o que ainda tínhamos que fazer, como uma ladainha. "Pagar a empregada, pagar a MEO, scanear documentos...". Para repetir outra vez passados cinco minutos, no stress dum possível esquecimento. Prova que estas férias já vem mais do que tarde.
Depois de tudo feito, um acesso de peso na consciência (e nas costas), e volta-se a fazer a mala toda outra vez. Menos 1kg. Ainda sobram 13. Mas pelo menos consigo fechar a mochila. E não caio para trás tipo tartaruga desamparada quando ponho a mochila nas costa. Agora chega. Pior das hipóteses, repito o outift. Ou faço estragos no cartão de crédito.
 Parafraseando uma certa doutora, fomos "dormir à pressa". Duas horas de cama, e upa outra vez. Com um olho aberto e outro fechado, mochilao nas costas (e outro na barriga), táxi, reunião com terceiro elemento ( o quarto vai encontrar-se conosco em Paris, porque somos gente fina), bagagge drop a correr (a minha foi a única brindada com o epíteto de "bagagem fora de formato"), corre corre pelo controle de passaporte e pimba, avião. Viagem rapidíssima. Adormeci antes de levantar voo e acordei com a aterragem.
Agora em Paris CGD, a ver se é possível escrever um blog no tlm. Conclusão: mais ou menos. Não dá para acrescentar fotos. Bummer.
Esperam-se relatos mais interessantes no futuro próximo. Se a internet e a bateria assim o permitirem...