A manhã deu-nos a conhecer a vista envolvente. Melhor descrição: parece que estamos em Homs. Casas de tijolo semi-construidas/destruidas, pó, pó pó. Resolvemos então voltar a vista para o interior, onde o pequeno almoço (digno de hotel) era servido num terraço no terceiro piso muito engraçado, com direito a ainda um skybar no piso seguinte. Fancy. As vistas mais altas dizeram-me perdoar a cidade. De um lado o deserto, do outro as montanhas. Ambos a tentarem devorar a cidade. Pelo meio muito edifícios baixos, umas quantas cúpulas dispersas, e uma nova vontade de conhecer a cidade.
Em modo pessoas altamente produtivas, num esforço conjunto resolvemos autocarro, hostel e programinha turístico para as próximas 24 h. O dia de hoje já estava acordado, graças ao senor José (um santo): tarde no oásis de Huacachina, com direito a passeio de buggy nas dunas.
Ao sairmos do hostel apercevemo-nos que afinal estávamos num bairro residencial bastante engraçado, mas de gente poupada: só as paredes exteriores é que estão pintadas, o que explica o aspecto inacabado visto de cima.
Fomos pela rua principal em direcção ao centro. A primeira impressao é que todos os veículos são taxis: carros normais assim identificados, os ticos (uns carrinhos pequeninos que parecem carrinhos de choque, com antenas na parte traseira, muito chuning, luzes coloridas) e os mototaxis (são tantos que parecem enxames). Todos buzinando alegremente, ainda não percebi com que objectivo. Nao é para angariar clientes, porque muitos estão ocupados. Não é para avisar que vão avançar, porque também buzinam parados nos semáforos. Enfim, acho que é só pelo prazer de buzinar...
A avenida San Martin, uma das principais, tinha uma vida surpreendente para um domingo num país católico. Um trânsito perfeitamente caótico, onde atravessar a rua é uma aventura. Alguns restaurantes com bom aspecto, lojas, um mercado cheio de fruta apetitosa (e onde o segurança se passeava com ar de poucos amigos com um bastão de basebol curtinhos na mão), e no fim a igreja de San Martin, onde descobrimos que havia uma festa religiosa qualquer que ninguém nos soube explicar (Corpus Christi?), Com direito a igreja a rebentar pelas costuras, procissão e vários grupos de jovens a enfeitarem as ruas com desenhos feitos com giz, flores e terra. Muito bonito e colorido, enfeitando as ruas até à Plaza Mayor (a versão loc do Rossio, todas as cidades têm uma). Aí perto está a Catedral, em ruínas. O terremoto de 2007 deixou-a a abanar, o de 2010 fez ruir a abóbada do tecto e parte das torres. Aliás, como aconteceu com vários outros edifícios, o que explica o sentimento de devastação que se sente em algumas partes.
Em modo turístico fomos avançando em direção a outra abóbada (igreja de santa Maria), prestes a entrar numa rua manhosa, quando fomos abordados por um agente da autoridade que nos sugeriu simpaticamente que fôssemos para outro lado. Ao que parece aquela zona não era muito turist friendly, com um risco elevado de ficarmos sem máquina e mochilas. Na realidade já estávamos cansados, era quase meio dia e nem a rua nem a igreja pareciam assim tão interessantes, portanto resolvemos voltar para o hostel. Como? De moto táxi, é claro. Eu já estava preparada para regatear e pedinchar para irmos os quatro no mesmo mototaxi ( o que me parecia difícil, tipo 15 palhaços num Mini dos antigos), mas o senhor respondeu prontamente que sim, e deu um preço irrisório. Portanto, lá fomos nós, em modo apertadinho, no meio do trânsito maluco, prepararmo-nos para o deserto.
Com uma pontualidade britânica, o senor José estava pronto para nos levar até Huacachina, o oásis. Uma viagem rápida, 5 min, mas de um mundo para outro. As casas são rapidamente substituídas por areia. E de repente, demasiado perto da civilização para o meu gosto, aparece o oásis. À primeira vista, desilude um pouquinho. Demasiados postes de electricidade, demasiados carros. Mas uma vez lá perto tem um certo charme decadente, semelhante ao que eu imagino que se veja em Havana (sensação confirmada pelo 4o elemento, que já lá esteve). Uma laguna rodeada de arvores, umas quantas palmeiras para fazer jus ao nome de oásis, rodeadas de duas linhas de casas térreas em diferentes estados de conservação. Ainda um pouco desiludidos saímos do carro e fomos à procura de comida. Apesar das multiplas solicitações, ganhou um restaurante mesmo em frente à laguna. E quando finalmente nos sentamos, bum! Uma vista completamente avassaladora da laguna com uma duna gigante (que até então tinha estado fora do nosso campo de visão). Novo sentimento: afinal este sítio vale totalmente a pena. E o almoço? Servido por um empregado simpaticissimo (que gritava constantemente a nacionalidade das mesas para identificar as mesas), e que nos recomendou três pratos criollos, todos deliciosos. Que como tantas outras coisas, me lembrou Minas Gerais: feijão, carne seca, arroz.
Depois de duas horas comendo e vendo aventureiros mais obstinados do que nós a subir a duna em frente (e a tecer comentários acerca das suas habilidades a descer com as pranchas de sandboarding, sempre ligeiramente desiludidos quando não caiam espetacularmente), decidimos aproveitar a piscina que estava incluída no tour. Lugar agradável, com espreguicadeiras e toldos. E água que apesar de azul era muito pouco apetecível. Alguns corajosos molharam os pés, mas não passaram disso.
Assim chegaram as 16h, hora combinada para o tour de buggy pelas dunas. Confesso ter-me aproximado dos buggies com alguma apreensão. Estava na posse de demasiada informação sobre acidentes nas dunas com condutores demasiado aventureiros, e nosso condutor não despertava grande confiança (ar amalucado, com uma coluna gigante na parte traseira do buggy a bombar martelinhos), e o próprio veículo em si não acalmava as minhas ânsias… mas f@#% it, YOLO. E lá seguimos, num veículo que não destoaria num filme do Mad Max, em direcção à areia.
Os primeiros 50m foram suficientes para saber o que me esperava. Lá porque estava num buggy com 1o lugares o condutor não ia deixar de ser um confutor peruano, fazendo ultrapassagens assustadoras, passando entre carros estacionados com 3cm de folga de cada lado, enfim, o costume. Agarrei-me ao cinto e pensei só que o meu seguro de viagens é bom.
A viagem foi mais montanha-russa do que montanha de areia. Curvas apertadas, subir e descer dunas quase verticais, mas nesta fase inicial a inalar e ingerir uma quantidade mínima de areia. Para quem nunca esteve no deserto,como eu, experiência bastante alienígena. Passados poucos minutos paramos para a foto. Ai sim o cenário parecia saído de um qualquer filme sobre uma realidade pós -apocaliptica. Música electrónica a bombar (graças ao nosso buggy), vários buggies estacionados juntos enquanto outros ainda aceleravam pelas dunas próximas e longínquas. E no horizonte de um lado areia, do outro a cidade e as montanhas. Lindo. Depois das fotos obrigatórias, mais uns aceleranços e curvas apertadas até ao cimo de uma duna, onde estacionamos em equilíbrio precário. De repente vejo pranchas de sandboarding. Primeiro pensamento:”Hell no!” Outra vez, o problema de ter demasiado informação. Bracos, perna e colunas que perderam a luta com a areia. E as minhas mãozinhas de cirurgião? Não estava com grande vontade de arriscar, até porque empoleirada no cimo da duna o final ficava longe e a inclinação me parecia quase vertical. Depois de me armar em cocó durante alguns minutos (e de ver as primeiras cobaias chegarem vivas e incólumes lá abaixo), deixei-me convencer pelos meus intrépidos companheiros de viagem. 1o passo: esfregar a parte de baixo da prancha com cera de vela. 2o passo: mandar às urtigas qualquer bom senso. E lá fui eu. E foi brutal. Boca bem fechada para não comer areia, cotovelos juntos e pernas afastadas de acordo com as indicações do guia, a descida durou apenas uns instantes, mas todos eles recheados de adrenalina. É o que dá ser uma menina trabalhadora da cidade, com uma vida pacata. Qualquer coisinha me parece uma aventura. Para os junkies de adrenalina isto só deve valer a pena se estiverem em pé numa prancha puxada pelo buggy, mas para mim chegou.
Depois, a parte ranhosa. Subir a duna seguinte com a prancha às costas, e voltar a descer. Novo momento de cocózice, “ só vou se empurrada por uma pessoa com qualificação”, que também passou rápido (acho que corri sérios riscos de ser empurrada pela cara-metade, preparada ou não, possivelmente até sem prancha), e lá fui novamente. As duas horas passaram rápido, quase sem nos darmos conta, entre descidas de dunas e sermos levados até às dunas seguintes. Próximo do pôr do sol tivemos direito a emoção à séria, servida com uma refeição de areia. Rapidamente percebemos porque. Para chegarmos no momento ideal ao local ideal para ver o pôr do sol no deserto. Incrível. Mesmo que o resto do dia não tivesse sido fabuloso,valeria a pena por aquele pôr do sol.
Daí volta rápida para o hostel (outra vez com o fofinho do senor José), para um banho merecido (e quente! ), onde foi quase possível retirar a areia que se tinha infiltrado em todo o lado.
Aventura seguinte: encontrar um local para jantar. As recomendações do senor José cruzadas com o tripadvisor le aram-nos para um restaurante a 8 quarteirões do hostel, Forja. O caminho para lá foi tranquilo, apesar de uma certa apreensão (outra vez, penso que devido a ter lido demasiado sobre os perigos de viajar no Peru). No entanto, não fiquei muito descansada quando vi o portão trancado que separava a porta da rua do restaurante da sala de jantar. Enfim, a comida estava boa, o empregado era muitíssimo educado, mas éramos as únicas pessoas no restaurante, estava frio (está aberto para o exterior numa das paredes), a TV estava aos berros (debate presidencial, ainda vamos estar aqui no dia das eleições), e juntando a tudo isso sono, cansaço e um elemento fora de forma prestes a virar o barco (falso alarme, ainda não foi desta que sucumbimos à GEA do viajante), comemos e fomos rapidamente para casa.
Os homens corajosos do grupo ainda tentaram procurar um sítio onde finalmente beber um pisco sour, mas a busca foi infrutífera. E assim, ainda a tentar curar o jetlag, estávamos todos a dormir às 22h.
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