domingo, 29 de maio de 2016

The Lima Experience (28/05/16)

 Nestas férias estou a tentar uma abordagem diferente, ser uma pessoa diferente. Os primeiros dez da viagem não foram planeados. Quer dizer, foram totalmente planeados na minha cabeça, mas não fiz nenhuma reserva. Nada de hotel, transporte, tours. Nada. O que quase levou o meu control freak self à loucura. Numa tentativa de apaziguar os meus inner demons acabei por over prepare tudo o resto. Nomeadamente a chegada a Lima, pelo que tivemos direito ao pacote Rock Star, com um senhor simpático segurando um cartaz com o meu nome logo à saída das chegadas, para nos levar ao hostel.
 Primeira impressão da cidade, assim que saímos do aeroporto: cinzenta, não abafada como eu estava à espera, e feia. A viagem até ao hostel foi perfeitamente alucinante. Apesar do seu aspecto calmo e fala tranquila, o nosso condutor era uma verdadeira barracuda da estrada. Mas pelo que percebi essa é e a única forma de conduzir em Lima. Na estrada do aeroporto para o centro não existem faixas, e todo e qualquer espaço disponível é imediatamente ocupado, se não for por alguém dessa mesma faixa será por um dos vizinhos do lado. Ziguezague alucinante, com demasiados encontros quase imediatos com os carros vizinhos. Felicíssima por nem sequer ter trazido a carta de condução, seria devorada pelos outros condutores em menos de 30 segundos...
 Lima tem 10 milhões de habitantes, é uma mega metrópole, e tudo fica longe. Quarenta minutos depois lá chegamos ao Hostel, um sítio muito simpático no também simpático bairro de Miraflores. Malas rapidamente abandonadas e partimos para caçar o jantar.
 A 5min do hostel fica a Plaza Kennedy, suposto hub de restaurantes. Após dez minutos a ver as montras não resistimos mais e acabamos por ficar no primeiro que tinha um ar composto boa clientela. Apesar de estarmos na "Calle Pizza" (o que descobrimos no dia seguinte), jantamos um pouco original mas saboro frango assado. Primeiro contacto com cerveja local, "Cusquena", não muito agradável: cerveja saborosa mas servida quente...
Em versão zombie voltamos para o hostel, onde depois de 5 min a tentar encontrar coisas nas (muito maiores que deveriam ser) malas, colapsamos em grupo.
 Na manhã seguinte, pasme-se, não fui a primeira a acordar. Nada como duas noites muito mal dormidas para desactivar o despertador interno. Pequeno almoço fabuloso, com granola e manteiga de amendoim caseira. E direito a ver um kaclla, ou cão pelado peruano, que segundo a minha intrépida companheira de viagem parecia um rottweiler careca com vitiligo.
 Uma vez nutridos, começou a brincadeira (não muito engraçada na minha opinião) de tentar marcar as coisas para a próxima noite. Após o passeio inicial por Lima, e depois de descobrirmos que não havia quartos disponíveis no hostel para uma segunda noite, resolvemos passar para a etapa seguinte da viagem, Huacachina, o oásis. Só que estes putos mimados de países europeus já se esqueceram do que é não ter internet disponível 24/7. Portanto depois de não ter conseguido a reserva para o local que eu queria ainda aproveitando o WiFi do hostel seguimos em direção à praça Keneddy para comprar os bilhetes de autocarro e seguir para um walking tour da cidade, armados de um número de telefone local e um cartão telefónico peruano. O único problema foi o facto do número de telefone não estar aparentemente atribuído... mas enfim, como intrépidos viajantes que somos, resolvemos seguir em frente e tratar disso depois. O que quase me provocou um aneurisma, mas um dos objectivos desta viagem era turn the control freak down...
 Seguimos então para um walking tour com a Nina da Bandana Tour (que ao contrário do que referia no flyer não trazia uma bandana na cabeça). Embora não tenha sido um dos melhores que já fiz, foi uma maneira simpática de conhecer o centro histórico da cidade, juntamente com um estudante de Medicina (coincidência) holandês chamado Dolph, que estava a viajar há 6 semanas e iria continua mais umas quantas (inserir palavra feia para demonstrar inveja). O caminho até ao centro só demonstrou que ir embora no mesmo dia era uma boa ideia. A cidade não é bonita, feia, cinzenta, com prédios sem arquitectura e aqueles que têm uma bonita arquitectura a cair de podre.
Plaza de Armas, Palácio da Presidência, Catedral (na frente da qual fomos quase trucidados por Cocó de pássaro, porque aqui os pombos são substituídos por abutres). Check check check. Tentativa de visitar a Igreja e Mosteiro de São Francisco frustrada pelas multidões de famílias e meninos com uniforme escolar em peregrinação por causa do Corpus Christi, e também por falta de tempo (era catacumbas do mosteiro versus Museu Larco...). As ruas do centro poderiam ser bonitas, mas a maioria estava num estado de degradação triste. Segundo a guia existe um projecto municipal para recuperar os mais de 600 balcões (varandas) do centro, mas ainda estava em fase embrionária.
 Depois do tour, a primeira experiência gastronómica peruana: almoço no Los Coreanos, o restaurante mais antigo de Lima, onde a inteligentzia se reúne para discutir e para ser vista. A inteligentzia é inteligente: ceviche maravilhoso, seguido de uma jalea mixta, que é uma espécie de fritada mista de marisco panado. Tudo lindo, e delicioso. Os outros pratos que passaram por nós pareciam igualmente deliciosos, e agradáveis à vista. Mas não havia estômago para tudo...
 Depois do almoço, aquele momento que todo o viajante do primeiro mundo conhece: a procura do Starbucks para aceder à net. Lá conseguimos fazer a reserva para essa mesma noite, não em Huacachina (tudo o que era acessível esgotado), mas em Ica, ali mesmo ao lado, por um preço altamente apetecível (pagamos por duas noites quase o mesmo que pela noite em Lima).
Daí seguimos viagem para o Museu Larco (sniff sniff também queria ver as catacumbas). Um pequeno apontamento sobre os táxis em Lima: não tem taxímetro, e existem em vários níveis de legalidade. A guia disse,-nos um valor aceitável para nos levarem até ao Museu, e lá fomos nós negociar. O nosso quarto elemento é um born negotiator who drives a hard bargain. Quando o primeiro taxista se recusou a baixar o preço pela segunda vez (o primeiro valor foi o dobro daquilo que era suposto) simplesmente disse "isso é inaceitável" e foi embora. Nota mental: leva-lo comigo da próxima vez que for procurar casa.
 A viagem até ao Museu só serviu para termos a certeza que a decisão de só ficar um dia em Lima foi a melhor. Tirando os edifícios do centro não havia muito mais beleza na rua.
 A meio do caminho para o Museu começamos a ponderar se a decisão de apanhar um táxi na rua, sem grande segurança, tinha sido a mais acertada. Meia hora de caminho, em bairros cada vez mais residenciais, levou-nos a pensar que se calhar era melhor ligar o GPS. Mas de repente, como uma visão, aparecem os muros brancos do Museu Larco. No meio do cinzento de Lima o museu parece uma visão. Muito chique: porta fechada para a rua, seguranças com um ar armado à porta. Lá dentro tudo florido, limpo, arrumado. E o acervo do Museu fabuloso: tudo o que você sempre quis saber sobre as culturas pré-colombianas mas nunca lhe ocorreu perguntar. Uma sala particularmente interessante, dedicada aos sacrifícios humanos das várias culturas indígenas. Ou não fosse eu uma apreciadora de gore... noutro edifício, uma das razões porque o museu é conhecido: a galeria erotica. Por motivos profissionais tirei várias fotografias (penso que aquelas representações da anatomia masculina podem vir a enriquecer apresentações sobre o assunto), e cheguei à conclusão que não se inventa nada de novo sobre a terra há muiiiiiiiito tempo...
 Já em modo de despedida, fomos do Museu para Miraflores. Pizza manhosa para jantar, porque o tempo escasseava (para qualquer lado onde se vá demora-se quarenta minutos), hostel rapidamente para buscar as malas (e tentar fazer uma festinha no Pisco, o cão pelado, que me rosnou e tentou morder), táxi (mais um momento em que todos os jogos de tetris serviram para alguma coisa, 4 mochiloes e mais tretas na bagageira de um carro normal) e finalmente terminal rodoviário.
 Depois de passar por um controle de segurança que humilha vários aeroportos lá entramos num belo autocarro nocturno, com 50x mais conforto que o avião. E tudo o resto é história, porque nem me dei conta do autocarro sair da estação às 19:30, só acordei já em Ica...

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