terça-feira, 31 de maio de 2016

One flew over the hummingbird's nest (30/05/16)

Another day another dawn. Mais uma vez acordada pelo nascer do sol na casa da luz vermelha. Já calejados, os intrépidos viajantes arrumam as (múltiplas) mochilas em tempo recorde, e partem para mais um pequeno almoço fabuloso servido no terraço do Hostel. Triplamente reforçado, em parte por causa do apetite, em parte porque saltar o almoço como prevenção do vómito aéreo acrobático em Nazca era uma opção real.
Já com tudo arrumado, fomos tratar do transporte para a estação de autocarros. Infelizmente não encontrei o senor José (provavelmente a descansar do fim de semana de trabalho árduo) mas sim uma não-José não muito simpática e sem grande vontade de fazer esforços para nos ajudar. Em resposta ao nosso pedido de transporte saiu até à rua e chamou um táxi. Um Daewoo Matiz onde mal cabiamos nós quanto mais as mochilas. Nem com a ajuda da pessoa que consegue enfiar 15 palhaços num Mini dos antigos. E pior ainda, não percebeu porque é que ficamos a olhar para ela feitos parvos. Enfim, nada que não se resolvesse com mais um táxi (pedido por nós, porque ela continuava sem perceber o problema).
Na estação de autocarros tudo tranquilo, apanhamos o autocarro para Nazca de uma das companhias locais. Inicialmente um pouco preocupada com a possibilidade de perder ambas as pernas por isquėmia (eu e a cara metade ficamos sentados nos dois lugares logo atrás do motorista, com muito pouca margem de manobra), lá consegui encontrar uma posição quase não dolorosa. Logo que saímos da estação, comecei a ficar apreensiva com outro problema: o suposto autocarro quase directo, com apenas uma paragem, afinal foi parando inúmeras vezes, para o assistente do condutor tentar recrutar novos passageiros gritando "Naaaaaaazcaaaaaaaa!!!!!" pela porta aberta. Felizmente isso acabou juntamente com os limites da cidade.
Depois que acabam as casas, começam as dunas de ambos os lados da estrada, de areia cinzenta, que são substituídas por montanhas castanhas que parecem feitas de cascalho, e depois o deserto. Só aridez de ambos os lados da estrada. Por vezes com aquilo que parecem definições de terreno, quadrados marcados com arame farpado. Para quê serve esta terra, não sei. Mas alguém quer assegurar-se que ninguém a toma.
Passado algum tempo, voltamos às montanhas áridas. E de repente, após uma curva em cotovelo assustadora, uma mancha verde. No vale entre as montanhas, uma zona fertil, cheia de arvores e plantações. Pelo nome, Rio Grande, e pelo leito de um rio que atravessamos imagino que seja para onde escoa toda a (pouca) água que cai nas montanhas circundantes. Estes pequenos oásis no fundo dos vales repentem-se de tempos a tempos no caminho, mas não chegam para apagar a sensação de aridez, secura e pó que se sente neste trajecto.
Chegados a Nazca, logo nos apercebemos porque é que o senhor das Alas Peruanas se tinha oferecido para nos buscar à saída do autocarro quando reservamos o vôo sobre as linhas. O escritório deles é no outro lado da rua. Simpaticamente nos ofereceu o hotel ao lado (também propriedade deles) para quartel-general: sítio para guardar mochilas, wc e sofás para aguardar tanto o vôo como o night bus para Arequipa (próximo destino).
Depois de tudo tratado fomos procurar almoço. O senhor tinha-nos um restaurante local chamado Lemón y Sazón, ao fundo da rua. Nós bem que procuramos, mas dada a inexistência de placas assinalando o nome dos vários"comedores" na rua optámos só por aquele com melhor aspecto. E que afinal até era o certo. Comida local feita por locais para locais. Sem muitas opções, em versão menu de almoço. Eu optei por um "res seco" que se revelou um cordeiro muito tenrinho afogado num molho verde saboroso e arroz branco. Sem pretensões, mas com gosto de comida caseira. Fez-me lembrar a comida da minha mãe, até no tempero.
Daí fomos descansar um pouco no hot, preparando-nos mentalmente para o vôo, que já não tinha sido descrito de forma deveras desagradável.
Uma vez no aeroporto, momento humilhante: pesagem pública. Ao que parece os senhores não acreditam nos pesos aproximados que nós fornecemos previamente. E com alguma razão. Pelo menos 3 elementos (eu incluída) falharam por 3-4kg em defeito. A comida peruana pode ser boa, mas não 3kg-em-3-dias boa. Na minha opinião, balança mal calibrada.
Em breve chegou o nosso co-piloto, outro José simpático, carioca de nascimento mas peruano de criação, que nos explicou os pormenores do avião e do vôo. Entramos na pequena avioneta (piloto,copiloto e 4 passageiros). Tive um breve momento de hesitação ("isto não parece boa ideia, esta porta é ridícula, vou cair no meio do deserto"), mas que passou assim que levantamos vôo e me debruçei sobre a paisagem.
Nazca não é definitivamente uma cidade bonita. De cima parecia uma favela camuflada, edifícios inacabados, precários, e da cor do pó das montanhas. Apenas um ou outro apontamento de cor, casas pintadas mas que se adivinhava que rapidamente passariam também ao castanho pó.
E ao fim de alguns minutos, depois de sobrevoarmos uma planície repleta de plantações (como?como?), chegamos ao deserto. Não tinha noção que as linhas estavam tão próximas da civilização, e que eram atravessadas pela estrada Pan-Americana. Nem que eram tantas. Para além dos desenhos, inúmeras linhas, triângulos, rectângulos, todo o deserto coberto deste grafitti. Quase poluição visual. Entre deserto e montanhas dispersas pelo seu meio e à distância, vários tons de vermelho e castanho. Os geoglifos são fáceis de identificar, principalmente com as indicações e referências dadas pelo co-piloto. As viragens quase verticais para que ambos os lados do avião tenham uma boa visão das figuras fazem-se sentir, mas nada do cenário temível que me tinham pintado. Macaco, aranha, astronauta, beija-flor, os geoglifos sucedem-se rapidamente, quase seguidos. Impressionam pela dimensão e exactidão. Como foram feitos? Compreendi porque é que todas as imagens que vi da Maria Reiche, a arqueóloga e matemática alemã que foi a primeira estudiosa das linhas mostram uma senhora um tanto mal encarada. Uma vida inteira a tentar encontrar uma explicação matemática e astronómica, altamente científica, e depois chegam outros que dizem simplesmente "alienígenas", e parecem ter mais razão.
O facto das linhas serem cruzadas pela Pan-Americana faz doer o coração, principalmente a cauda do aligator que é literalmente atravessada por ela, como se tivesse sido atropelado ao tentar passar. Ao que parece, a estrada foi idealizada antes de compreenderem a verdadeira dimensão e importância das linhas. Mesmo assim, dá pena.
Os trinta minutos do voo passam a voar (hehe). Para desilusão minha, ninguém utilizou os saquinhos de plástico estrategicamente localizado no avião. Mas um dos elementos saiu pálido e combalido, necessitando de uma água das pedras, domperidona e mini-sesta para recuperar a cor.
De volta à Nazca, primeiro recuperamos forças com crepes e gelado. Depois fomos comemorar o facto de não termos morrido (e o aniversário do 4o elemento, embora tenha sido acordado que a comemoração oficial será em Arequipa) provando finalmente o famoso Pisco Sour. Sabor semelhante ao da caipirinha, mas com menos gelo. E escorrega igualmente bem. O factor impeditivo de tornar um em vários foi o medo do mal da altitude no destino seguinte...
A seguir, estivemos a fazer tempo, entre restaurantes e o hotel, à espera das 22h para embarcarmos na etapa seguinte da nossa aventura: night bus to Arequipa. São só 10 horinhas...

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