quarta-feira, 1 de junho de 2016

It's a nice day for a white city (31/05/16)

Estes autocarros nocturnos devem fazer concorrência à 1a classe da maioria das companhias aéreas. Assento larguissimo, que rebate 160o, com direito a almofada, mantinha, biblioteca in bus, pequeno almoço e hospedeiro de bordo. Sem falar de tomada para carregar gadgets, indispensável para o viajante moderno.
A viagem foi tranquila, tendo acordado apenas na hora final, com o nascer do sol e com o senhor assistente de bordo anunciando com uma voz de veludo que iria começar a servir o pequeno- almoço em breve. A paisagem fora da janela continuava montanhosa, mas com um tom mais amarelado. E no fundo do vale via-se um rio à seria, com margens verdejantes. A impressão inicial da cidade, assim que chegamos aos limites, foi semelhante às restantes. Até chegar ao terminal rodoviário não me senti impressionada. Mas uma vez no táxi (mais  pontos para um tetris perfeito, quatro mochiloes na bagageira de um sedan), à medida que nos aproximávamos do centro foram aparecendo edifícios térreos, de pedra branca, portas trabalhas, e outro com balcones semelhantes aos de Lima. O motorista, muito simpático, foi respondendo às perguntas e dando um muito sumário tour da cidade. O apelido "Cidade Branca" deve-se à pedra vulcânica da mesma cor utilizada na maioria dos edifícios antigos. Alguns estão pintados, mas a pedra liberta demasiasa humidade e salitre, portanto é mais fácil deixar ficar na cor original.
Ao contrário de Lima, as casas estão bem tratadas, com vida. No breve caminho até ao hostal fiquei enamorada.
Apesar de ser apenas 07:30, resolvemos tentar a sorte e ver se o quarto do hostal já estava disponível. Jackpot. Um quarto bastante engraçado, com o tecto alto e arredondado que depois vim a aprender que é característica dos edifícios coloniais. Banho rápido, e saímos à procura de mantimentos. Menu de pequeno almoço arequipeno: pan de tres puntas (uma espécie de pita com sementes de anis), marmelada de papaia (delicioso, pedi para repetir 3 vezes), um queijo local salgado (que lembra muito o queijo Minas), sumo fresco de ananás e para rematad, matte de coca (para ajudar com o mal de altitude).
Assim recuperados, fomos tratar de organizar o tour pelo Canyon de Colca. Devagarinho, porque não tínhamos a certeza que o cansaço e cefaleias dispersos pelo grupo se deviam a uma noite não tão bem dormida como a minha ou aos 2300m de altitude.
As agências de turismo, para gáudio do viajante independente, parecem estar todas na mesma rua. Aliás, algo que nos apercebemos mais tarde que ocorria com bastantes outros produtos. Uma rua só com lojas de instrumentos musicais, outra de produtos de couro, e a mais impressionante, de ópticas (contei 14 seguidas, apenas num dos lados da rua, mas penso que deveriam ser pelo menos 50). Seguindo os conselhos do Lonely Planet e de outros viajantes, fomos a duas agências comparar preços para o trekking de 2 dias no canyon de Colca. As ofertas eram muito semelhantes, mas o facto de uma ter disponibilidade e outra não ajudou na decisão. Na agência apercebemo-nos que seria possível apanhar um autocarro directamente para Puno a partir de Chivay, no meio do canyon, o que nos poupava as 4 horas de volta a Arequipa, e na realidade nos permitia mudar um pouco os planos, de 1 dia e meio intercalados com o trekking em Arequipa para 2 dias inteiros na cidade. Um plano bastante melhor do que aquele que eu tinha delineado previamente na cabeça. E que, juntamente com a facilidade com que tínhamos até agora tratado de tudo (a preços melhores do que os que tinha obtido por email) me obrigou a dar o braço a torcer  e a admitir que viajar um pouco sem rede é possível e até tem as suas vantagens. Acho que a partir de agora, pelo menos desta viagem, irei sofrer apenas de indigestão e prurido pela ausência de organização.
Com tudo tratado, e a serenidade de quem tinha dois dias para passear com calma, fomos andando em direção ao centro, a inevitável Plaza de Armas. Ruas bonitas, com vida, bem tratadas. Depois de vermos uma série de portões impressionantes, a abrir para pátios ou lojas, resolvemos entrar num deles para  explorar. Eram as "casonas" coloniais cujos portões abriam para uma sucessão de pátios interiores, uma espécie de  claustros rodeados por apartamentos ou lojas, com direito a árvores, fontes, banquinhos pitorescos. Delicioso. Como não podia deixar de ser, as entradas mais impressionantes pertenciam aos bancos e à Universidade Católica. Novidade...
A Plaza de Armas parecia transladada directamente de Espanha. Arcadas coloniais delimitando três lados do quadrado, e no outra, a Catedral . Está, apesar de impressionante pela sua largura, parece uma fachada cinematográfica. Parece não ter profundidade. E a ausência de elementos religiosos e as colunas tornam-a mais semelhante a um templo grego ou edifício estatal do que a uma igreja. Dito isto, continua a ser bonita, principalmente quando vista da outra extremidade da praça, enquadrada pelas suas duas torres e pelo Chachany à esquerda e El Misti à direita. Por dentro não é muito impressionante (pelo menos na parte visitável sem pagar).
Seguimos então para o Museu dos Santuários Andinos, para prestar homenagem a Juanita, o cadáver extretemamente bem conservado de uma jovem sacrificada pelos incas no século XV e encontrado por uma expedição da National Geographic nos anos noventa, numa montanha perto de Arequipa (sendo o líder da expedição John qualquer coisa, daí o nome Juanita). O museu é relativamente pequeno, e a visita guiada começa com um filme de 20 minutos sobre a descoberta da Juanita. Que escusado será dizer, não foi visto na totalidade por nenhum dos intrépidos viajantes, cansados ainda da noite no busão. We got the general picture. Daí passamos para a visita guiada em espanhol, com uma guia que falava extremamente rápido mas que dava para compreender. O espólio consistia em objectos encontrados juntamente com a a jovem. Embora essa parte tenha sido interessante, o melhor foi perceber como se processavam os sacrifícios humanos.  Ao que parece as criancas a ser sacrificadas eram escolhidas ainda na infância, entre os mais robustos e saudáveis, e levados para viver uma vida recatada, preparados desde cedo para o sacrifício. Quando chegava a altura, eram levados para o alto das montanhas (daí a necessidade de robustez, a Juanita foi encontrada a mais de 5000m de altitude), drogados com bebidas alucinogenicas e das duas uma, ou levavam uma porrada na cabeça como a Juanita, ou morriam de hipotermia ainda drogados. Depois eram arranjadinhos nas suas criptas.
Para além da Juanita foram encontrados outras duas "múmias" na mesma montanha, mas que não tem direito a nome, apenas "el nino" e "la nina numero dos". Pareceu-me injusto, mas ao que parece o nome Juanita foi dado pela imprensa, de forma não oficial, e colou.
Na última sala conhecemos então a jovem, num câmara refrigeradora envidraçada. Um tanto creepy, mas ao mesmo tempo impressionante. Segundo a minha intrépida companheira de viagem, não lhe parecia bem que tivessem ido buscar algo que pertencia aos deuses. Quem dá e volta a tirar ao inferno vai parar. Talvez, poderia ser uma explicação para os sucessivos terremotos locais...
Da cultura para a gastronomia. Mortos de fome, seguimos para um restaurante indicado pelo guia do Museu, do outro lado do rio Chili. Valeu pelo passeio, que nos levou até uma ponte com uma vista totalmente desafoga dos vulcões Chachany e El Misti lado a lado, mas o restaurante foi uma total banhada: ao invés da picanteria tradicional que nos tinham prometido, fomos parar a um restaurante turist-trappy no meio de um complexo turístico. Bummer. Lá voltamos para o centro, e encontramos um tasco com ar decente, numa rua agradável, onde almocei um delicioso pollo al ajį (frango ensopado com uma pimenta amarela que tem um sabor delicioso mas não picante).
Mais umas voltinhas para fazer a digestão, e acabamos a ver o pôr do sol num terraço da Plaza de Armas, enquadrado pelas torres da catedral e saboreando uma Arequipena (cerveja local, já que não íamos no dia seguinte para Colca não era necessário evitar o álcool como profilaxia do mal de altitude).
Volta ao hostal para banho e vestir as nossas roupinhas civilizadas, para finalmente comemorar o aniversário do 4o elemento em grande: jantar no Chi Cha, restaurante do chef Gastón Acúrcio, um dos responsáveis pelo sucesso da nova cozinha peruana, com restaurantes em várias cidades. Chique, totalmente fora do nosso budget de mochileiros, mas aparentemente uma experiência a não perder. Aspecto cuidado, empregados educados, ajuda do sommelier para pedir o vinho. Pedimos "El Gran Puchero Chicha", uma mistura de carnes para partilhar entre todos. Curiosos e famintos, esperamos meia hora. E o que nos apareceu? Cozido à portuguesa. Com uns vegetais locais. Se desilusão fosse comestível, teríamos saído de barriga cheia. Não bastasse ser um prato bastante conhecido, metade de nós não era grande apreciadora de cozido...
O momento de redenção veio com as sobremesas (e com o tartufo de aniversário com vela e tudo que trouxeram para o aniversariante). A minha era uma esfera de chocolate sobre a qual se vertia chocolate quente, destruindo a esfera inicial e desvendando o seu conteúdo (espuma de canela, crocante de baunilha e mais chocolate). Delicioso e divertido. Confesso que bati palminhas quando a esfera se desfez. As restantes sobremesas também estavam boas, mas não tinham o uau factor da minha.
Com estômago pesado e carteira leve regressamos ao hotel, onde em menos de 15 minutos estávamos todos a dormir.

Sem comentários:

Enviar um comentário