quinta-feira, 16 de junho de 2016

Valley of the gods (07/06/16)

Às oito da manhã estávamos prontinhos, à porta do hotel, esperando pelo senhor Hermógenes (doravante referido como Sr H para poupar trabalho). Por sugestão dele iríamos fazer o circuito do Vale Sagrado ao contrário, começando pelas salinas em Maras e terminando em Pisac.
Saída de Cusco um pouco complicada por causa do trânsito, mas ao fim de meia hora já estávamos na estrada alcatroada. Que não durou muito tempo. Trinta minutos depois viramos para uma estrada de terra batida, num terreno ermo, árido, poeirento, sem grandes sinais de civilização, só com searas à volta, e volta e meia uma casa de adobe. Encontramos poucos carros no caminho, mas muitos rebanhos de ovelhas.
As salinas não parecem muito impressionantes quando descritas, mas a visão de toda a encosta de uma montanha recortada em pequenos rectângulos, com vários tons entre o branco e o castanho, são muito bonitas. Usadas há centenas de anos, o sal provém de uma nascente salgada que vem das montanhas. 
O Sr H tinha razão, quando chegamos havia apenas mais um grupo de turistas. Estivemos meia hora a passear pelos caminhos, a provar a água (e a rezar para não apanhar nenhuma bicheza, mas penso que a água é demasiado salgada para que cresça aí alguma coisa), e quando o sol começou a apertar seguimos para a paragem seguinte, Moray. Um laboratório agrícola inca, o local consiste em três círculos com terraços a alturas diferentes, onde experimentavam diversos tipos de cultura, com diferentes graus de humidade, sol e vento. Infelizmente hoje em dia não há plantações, e vemos apenas relva. Demos uma volta, e seguimos para Ollantaytambo.
A viagem levou uma hora e pouco, inicialmente por estradas de terra batida nas montanhas, até descer próximo do rio Urubamba, onde se transforma numa estrada em condições, asfaltadas e com duas vias. Fiz metade da viagem a dormir...
Quando chegamos a Ollantaytambo, o Sr H ofereceu-se para nos levar a um restaurante onde costumava almoçar. Deu a entender que era um tasco típico. Quando lá chegamos era na realidade um restaurante tipo buffet para grupos turísticos. Enfim, ainda chegamos antes das hordes turísticas, o menu do dia até era baratinho, e a sopa de quinoa uma delícia.
Quando saímos do restaurante, má surpresa: o carro tinha um pneu em baixo. Deixamos o Sr H a resolver o problema e seguimos para as ruínas. Estas ocupam toda uma encosta, a norte do pueblo. Resolvemos aceitar a oferta de um guia local para uma visita guiada, embora a um preço pouco convidativo: 20 soles por pessoa. Ainda tentamos regatear, mas não foi possível.
Segundo o guia Ollantaytambo parece ter sido inicialmente um local administrativo e de trocas comerciais, num ponto estratégico na união de três vales. Numa fase posterior, após a chegada dos espanhóis, foi transformado em fortaleza.
Para as nossas perninhas cansadas e joelhos manhosos a subida inicial dos terraços foi dura. Estes não eram para cultivo, mas sim para plantação de flores e ervas medicinais. Deve ter sido bonito. Lá em cima, uns pedregulhos enormes parecem ter feito parte de um templo, uns dizem do Sol, outros que pela sua localização deveria ser dedicado ao Cruzeiro do Sul, constelação muito importantes para os incas. Não sei, só que as pedras eram gigantes, com quase 3 metros de altura, encaixavam na perfeição, e na parede era possível apreciar vários mecanismos anti-sismo. O guia era particularmente apaixonado pela construção dos incas, e falou demoradamente sobre os vários tipos de união entre as pedras, e como forma esculpidas, e trazidas até ao cume do monte, e polidas, e etc etc etc. A determinada altura já estava só a apreciar a paisagem, que a construção é realmente incrível mas vamos lá ter calma... Daí descemos pelo outro lado dos terraços, até às fontes de purificação para os visitantes se lavarem antes de entrar no complexo administrativo/religioso. Uma bonita e trabalhada para os VIPs, um fio de água a sair das pedras para os restantes.
Muito mais informados sobre as diversas técnicas pedreiras dos incas, reencontramos o Sr H, de pneu trocado e carro limpo (até deu dó entrar cobertos de pó), e seguimos para Pisac, para ver as ruínas e o mercado. Da viagem até lá não posso fazer comentários, dormir o caminho inteirinho...
As ruinas, ao contrário do que eu pensava, são um complexo enorme ocupando toda uma montanha, com terraços agrícolas terminando no precipício. Infelizmente chegamos muito próximo da hora de fechar, e não tivemos tempo para muito. Fica a vontade de descobrir mais quando tiver net. Daí partimos para o mercado, que também já estava a fechar. Tentei desesperadamente encontrar as barracas das pedras e minerais, para levar um presente prometido. O problema foi, apesar da breve demonstração que me fizeram para reconhecer as pedras que procurava, no meio de várias pedras de tom azul ficava difícil perceber quais eram as celestinas... Procurei um senhor com aspecto honesto, que apontou para aquelas que me pareciam corresponder à descrição. No lusco fusco, à luz do telemóvel, consegui encontrar duas pedras bonitas. Espero não me ter enganado...
Para além das pedras e minerais o mercado vendia todo o tipo de artefacto turístico possível e imaginário. Mas cansados e sem luz, não tivemos grande paciência para procurar nada. No final ainda comemos um milho cozido com queijo (quase o sabor do milho quente da minha infância), e vimos um kaclla a passear pela rua.
Cansados, fizemos o caminho de volta, combinando com o Sr H novo tour no dia seguinte, para visitar as ruínas mais próximas de Cusco. Deixamos o quarto elemento na Valeriana, para jantar com uma colega de Lisboa que por acaso também estava em Cusco, e fomos ao hotel descansar uns instantes, para logo sair e tentar comprar aquilo que nos fazia falta para o Caminho Inca.
Reencontramo-nos para jantar, e acabamos num local turístico mas que agradava a todos, com pratos locais e pizza. E um empregado brasileiro, demasiado entusiasmado, que parecia consumir muito matte de coca. Para nossa infelicidade, encontramos finalmente a banda inca tocando grandes hits dos anos noventa em pan pipe. Que foi substituída por um dançarino tradicional que pulou ferozmente durante 20 minutos. Não piorou a digestão, mas tornou difícil a conversa.

Hidden jaguar, crouching tourist (15/06/16)

Nem parece que estamos de férias. Despertar às cinco para sair às cinco e meia, saltar para o bote e seguir meia hora rio acima para ver o famoso ajuntamento de papagaios buscando minerais no "clay lick" logo pela manhã. Durante o trajecto o sol começou a espreitar pela margem sul do rio, e víamos a neblina a levantar ao longe. Paz total.
Chegamos então ao ponto de observação dos papagaios. Para não os incomodar ficamos a cerca de 60m, numa praia de seixos, sentados numa almofadinha. Ver pássaros requer paciência... Passado pouco tempo vimos os primeiros casais a chegar, vindos da margem sul do rio. Verdinhos, com a cabeça azul, e um chilrear animado. Foram chegando cada vez mais, e voando em conjunto de uma árvore para outra. Segundo o guia, esperam estar em número suficiente antes de começar a comer o barro, porque nesse momento ficam vulneráveis. E de repente, uns 40 papagaios voaram para o mesmo espaço, recobrindo a encosta de verde e azul. E tão repentinamente como baixaram, subiram. Não durou nem cinco minutos. Ao que parece, a necessidade de minerais varia com a dieta. Ainda esperamos um pouco, mas chegamos rapidamente à conclusão que eles já tinham terminado o pequeno almoço e que era hora de tomarmos o nosso.
Por volta das 8h (a manhã rendia muito na selva), fomos de bote até ao outro lado do rio, para uma caminhada até a uma laguna, onde em tempos passou o rio Madre de Dios. Primeiro caminhamos pela praia de seixos, depois pela primeira linha à beira rio, uma floresta de canas altíssimas. Chegamos então a uma plantação de mandioca perdida no meio da selva e seguimos finalmente pelo meio da vegetação verde e frondosa. Mais uma vez, na parte inicial mais fauna do que flora. De repente ouvimos um ruído estranho, como um animal a bufar, e barulho de algo grande e remexer as folhas. Devagarinho, sem fazer barulho, fomos nos aproximando da vegetação. E vimos, do outro lado de um pequeno curso de água que acompanhava o caminho, uma aves enormes, cerca de um metro de altura, com a face azul e penachos amarelos na cabeça, a bufarem e a saltitar de ramo em ramo. Segundo a descrição do Miguel tinham o nome de hoatzin, e eram das aves mais antigas da região, quase pré-históricas. E com um aspecto um tanto ou quanto cómico.
Continuamos caminho, e chegamos a uma zona enlameada, cheia de pegadas de animais. Logo identificadas a pegada do jaguar e de um tapir, aparentemente com cerca de um dia. Sempre soube que não seria provável ver animais de grande porte nesta viagem, mas foi emocionante saber que pelo menos eles andam por ali. Logo chegamos à tal laguna, que embora selvagem é "explorada" pela municipalidade, que em troca de uma módica quantia cede umas jangadas em balsa. Imediatamente vimos mais hoatzins, que pelos vistos não são nada tímidos, sendo que o único sinal de desagrado pela nossa presença era o bufar constante. À volta do lagauna vimos garças, íbis, come-moscas, e uma ave cujo nome não me recordo, mas que devido ao seu zurrar ficou conhecida como ave- burro. A meio do trajecto estacionamos a balsa e seguimos a pé outra vez pelo meio da floresta. Passado alguns minutos sentimos movimento na copa das árvores, e a cara metade com muita paciência conseguiu encontrar o culpado, um macaco andarilho. Em modo stealth e com os binóculos fomos seguindo o bicho, e acabamos por encontrar vários outros. Passámos vinte minutos agradáveis a vê-los pular de árvore em árvore e a comer bagas e folhas. Muito fofinho.
Regressamos depois à laguna, sob o sol do meio dia, e com o efeito do repelente claramente a acabar. Todo o trajecto de volta foi feito em passo acelerado, com os pés a suar nas galochas, sem grande interesse pela fauna e flora. Quando chegamos à orla do rio, momento de inveja descomunal: outro grupo nadando alegremente no rio. E nós que não tínhamos trazido fatos de banho por sugestão do guia. Bummer...
Almoço caprichado seguido de banho quente e mini-sesta. Depois mais umas rodadas de Backpacker até às quatro e meia, hora em que saímos para novo passeio. Desta vez saímos por outro caminho, em direção ao rio, chegando a uma praia de seixos. Estivemos aí divertidos meia hora a tirar fotos e a chapinhar de galochas na água, e depois seguimos por uma lingueta do rio agora quase seca, formando pequenos charcos, mas que na época nas chuvas se transforma quase em ria.
Começamos a caminhar próximos dos charcos,e outra vez, na lama, múltiplas pegadas de animais. Um jaguar e a sua cria, um tapir também com um pequenino, capivaras e outros pequenos mamíferos. E como se não bastasse esse zoológico todo a menos de 20 min a pé do albergue, umas pegadas descalças que assustaram a intrépida companheira de viagem mais do que qualquer outro animal. Mas rapidamente nos apercebemos de outras pegadas de botas ao lado, sinal de que provavelmente pertenciam aos pilotos dos botes, que devem ter passeado por ali.
À medida que nos acabávamos no caminho o sol ia desaparecendo, dando lugar a uma noite sem nuvens, e a um coro quase ensurdecedor de sapos e rãs. Com a ajuda das lanternas procuramos o reflexo de olhos, mas tudo o que conseguimos encontrar foram muitas aranhas nos seixos (para desagrado da cara metade, quando se apontava a lanterna para o chão parecia haver um enxame de pirilampos) e uns quantos sapos. Saímos dali já noite cerrada, com um ligeiro desconforto, não fosse um dos transeuntes nocturnos aparecer por ali.
Esperava-nos no albergue um belíssimo jantar de truta panada na perfeição, ceviche de cogumelos e lentilhas. Nunca comi tão bem numas férias.
Para encerrar a última noite na selva, um último joguinho de cartas, que terminou comigo a ressonar em cima da folha das pontuações... 

Monkey business (14/06/16)

Por vezes parece-me que quanto mais cansada estou, menos durmo. Às três e meia da manhã estava acordada, despertissima, a ouvir a sinfonia dos insectos. O frio também não ajudou. Estes lodges claramente não tiveram em conta os ventos da Patagônia que trouxeram frio para esta região nos últimos dias... Fiquei na cama, a ouvir o galo, e a tentar arranjar coragem para ir ao wc. Vendo que a vontade não passava, liguei a minha lanterna frontal e depois de inspeccionar toda a rede mosquiteira, o chão, o interior das botas, todos os recantos do wc, na ausência de "hóspedes" extra lá fui eu. Prova superada. Começo a acreditar que vou conseguir sobreviver um dia às minhas férias de sonho de 1 mês na selva.
Às seis da manhã encontramo-nos com Miguel, o guia, no jardim, para um pequeno passeio. Vimos algumas plantas locais, e a famosa planta da coca. Ao que parece o clima do vale de Kosnipata, próximo da Reserva de Manu, tem o clima ideal para a plantação de coca, e a maioria das famílias produz e seca as folhas. Mas desde há alguns anos são obrigados a vender somente ao governo, que depois revende para os chás, rebuçados, folhas secas, etc, para não dar hipótese de tráfico. Se funciona ou não, não sei. Mas estou desiludida. Quando comprei o saquinho de folhas de coca à senhora velhota no mercado imaginei que ela ou o marido tinham colhido e secado amorosamente as folhas, e não comprado num armazém governamental.
Depois pequeno almoço fabuloso, cortesia do chef Luís, com direito às melhores panquecas que comi em muito tempo.
Tendo em conta que poderíamos não ver muitos animais na selva, resolvemos jogar pelo seguro e começar o dia visita do um centro de recuperação de animais selvagens, gerido por um casal local simpático. Pelo que percebi não me parece que muitos animais voltem para a selva, visto que são tratados um pouco como animais de estimação. Mas como resistir? O primeiro animal que vimos foi uma preguiça, com o andar mais pateta e fofo de sempre, e que se sentindo intimidado pela nossa presença amarinhou pela senhora cuidadora acima. Depois um casal de araras gigantes, que também não pareciam com grande vontade de sair dali. Seguimos então para uma zona de pasto, para ver o tapir e a capivara, passando pelos macacos à solta. Foi então que veio um macaco a correr na nossa direção, e resolveu amarinhar por mim acima e plantar-se sentado na minha cabeça. Fiquei parada, sem saber bem o que fazer. O guia disse-me para ficar quieta, e foi o que eu fiz. Senti o macaquinho firmemente agarrado ao meu cabelo, e quando o tentei enxotar começou a agarrar os meu óculos de sol e as minhas orelhas. Ligeiro momento de pânico, enquanto o resto do grupo se ria. Ao que parece o macaco estava a comer uma fruta e a coçar-se sentado em cima de mim. Quando estava a começar a panicar à séria o bicho lá se resolveu a ir embora. Not funny, apesar das gargalhadas da malta. Fomos então finalmente ver o tapir, um mamífero enorme mas vegetariano e fofinho. Que me mordeu na perna. O guia já só ria, dizendo que o Selva (nome do tapir) estava ali desde pequenino e nunca tinha atacado ninguém. Comecei a temer pela minha aventura na selva, quando até animais fofinhos me atacam...
Seguimos caminho pela estrada de terra batida/pedra de rio, no meio da vegetação, passando pelo pequeno povoado de Pátria, onde pudemos ver as folhas de coca a secar sobre plásticos na rua. Paragem seguinte, Pilcopata, um povoado um pouco maior, para comprar víveres. Rua de terra batida, casas de madeira, propaganda política em todas as paredes. Aproveitamos para ver a feira comemorativa do aniversário do município de Kosnipata. Muita banana, mandioca e ananás, algum artesanato, gente local entretida.
Num gesto desesperado, tentamos resolver o problema do e-reader da intrépida companheira de viagem (que tinha sido reiniciado sem querer no dia anterior, e precisava de ser ligado à internet para sacar os livros). Acedemos à internet no "locutório" local. Ao fim de 10 minutos simplesmente para abrir a página do gmail chegamos à conclusão que ela vai ter mesmo que conviver e conversar conosco, porque não ia haver livros para ninguém...
Seguimos pela estrada da selva, cruzando o rio Pilcopata, em direção a Atalaya, nas margens do rio Madre de Dios. Atalaya parece exactamente como as cidades da selva nos filmes: poeirenta, gente amistosa mas pouco faladora, casas de madeira, e um porto com botes para navegar o rio.
Passámos então à parte aquática da aventura: bote, na realidade uma barcaça, rio acima. Nesta altura do ano o caudal do rio é pequeno, tornando a navegação mais complicada, com alguns "rápidos". Mas mesmo assim a meia hora de caminho até ao albergue foi pacífica, vendo as montanhas recobertas de verde de ambos os lados, pássaros cruzando o caminho, e as praias de seixo que desaparecem quando vêm as chuvas e o nível da água sobe 3 metros em relação ao que vemos agora.
O nosso albergue era literalmente no meio do nada. Única forma de chegar ou sair era de barco. Propriedade de uma família local, quase não se vêem, estando ocupados com as suas vidas. Vários edifícios de madeira, uma cozinha ao ar livre, uma gaiola de rede mosquiteira que era a zona comum/zona de refeições, e um bangalô com 3 quartos, redes mosquiteiras a servir de metade superior das paredes. Sem electricidade, mas com água quente. Para além de nós estava lá apenas outro casal, com o seu guia e cozinheiro, sem grandes vontades de comunicar.
O tempo de arrumar a tralha foi o tempo de tratarem do almoço. Mais um refeição copiosa, chef Luís no seu melhor. Enquanto esperávamos que o calor abrandasse, fomos para a beira rio ver pássaros e conversar com o guia. Natural da Bolívia, já tinha trabalhado em vários parques da Bolívia, Peru, Brasil e Yellowstone. Vida engraçada. Falou-nos também da existência de tribos indígenas na reserva de Manu que não tem contacto com a civilização moderna. Por andarem nús são conhecidos pela população local como "calçados" (que pelo o que eu percebi significa pelado). No último ano em viagens mais prolongadas na reserva, em que avançam mais para o interior da selva, viu-os por duas vezes. Não é permitido estabelecer contacto, e é mesmo perigoso, tendo havido pessoas mortas por entrarem no seu território. A intrépida companheira de viagem começou a não gostar muito da conversa. Já não bastavam os jaguares e todos os outros bichos, as galochas para evitar picadas de serpentes, ainda corria o risco de ser trespassada por uma seta.
Por volta das três e meia partimos para o primeiro passeio na selva. Armados de galochas e lanternas, seguimos por um trilho que partia do albergue. Como estava à espera, muita flora e pouca fauna. O Miguel foi nos mostrando os diferentes tipos de árvores (incluindo uma palmeira pornográfica com raízes em forma de órgão genital masculino), mas animais vimos vários tipos de formigas (incluindo toda uma autoestrada construída por formigas cortadoras e o seu formigueiro gigante), poucas aves, e uma borboleta-mocho. A volta foi feita na escuridão, apenas com a luz das lanternas, e com algum medo dos barulhos estranhos da natureza.
Voltamos mesmo a tempo do jantar, seguido de ida para a cama à luz de velas. Desta vez já sem grandes medos de insectos, e manobrando o mosquiteiro sem dificuldade.

Welcome to the jungle (13/06/16)

Ainda mal refeitos da aventura do Caminho Inca, acordamos novamente de madrugada para sair para o tour de Manu, na selva. De manhã o entusiasmo não era muito. Ainda por cima porque já sabíamos que o dia iria consistir numa viagem de 10horas de carro. Esta saída tão em cima da chegada não era ideal, mas era o possível. Dadas as limitações de tempo era a única oportunidade de ver bichos.
O nosso guia Miguel veio buscar-nos às 6h, acompanhado pelo motorista e cozinheiro. Pelos vistos temos sempre entourage...
As primeiras três horas de viagem não foram particularmente interessantes. Saímos de Cusco e seguimos pelas montanhas da cordilheira dos Andes, paisagem entre agrícola e árida, passando por várias povoações. Tivemos uma pequena intercorrência a meio, uma estrada cortada por obras, mas que foi resolvida usando um atalho de terra batida pelo meio das montanhas.
Primeira paragem em Ninamarka, um povoado pré-inca, para ver as chullpas, pequenos edifícios funerários que pareciam umas torres do Portugal dos Pequeninos. O guia sentiu a nossa ausência de entusiasmo e rapidamente seguimos viagem.
Continuando a saga dos e-reader, nesta viagem o da cara metade ficou esquecido no quarto do hotel em Cusco, e o da intrépida companheira de viagem estava a dar problemas, mas na tentativa de os resolver o quarto elemento reiniciou o aparelho, apagando o conteúdo. O meu Kindle ficou na mochila em Cusco de propósito, que as escritas tem ocupado o tempo livre. Acho que vamos mesmo ter de falar uns com os outros na selva. Ou jogar cartas.
A paragem seguinte foi num vilarejo chamado Puercatambo, onde nos deixaram a tomar o pequeno almoço e foram ultimar as coisas para a ida à selva. Depois de comer e já aborrecidos por estar no restaurante resolvemos dar uma voltinha. Tinha um mercado de rua vendendo frutas e legumes, uma ponte antiga engraçada, e muitas mulheres vestidas de forma tradicional, com as saias, tranças, sandálias e meninos ou cargas às costas seguros por panos coloridos amarrados à volta dos ombros. Em cinco minutos decidimos que o lugar era uma seca, e ficamos a maldizer a nossa vida e a ver as pessoas a passar ao pé do carro, people watching (num bom sítio, estávamos ao lado da câmara municipal e o trânsito pedonal era intenso). Quando o guia finalmente apareceu e nos convidou para dar uma volta pela cidade e ir ao museu ouviu-se um suspiro colectivo mas lá nos arrastamos. E só para nós mostrar que somos uns meninos mimados da cidade grande, para lá da ponte havia realmente uma série de ruas e praças engraçadas, e o museu era realmente interessante.
Puercatambo fica a meio caminho entre Cusco e o Amazonas, e desde sempre serviu de entreposto comercial e cultural entre as culturas andinas e da selva, forjando uma identidade muito própria. É também muito conhecida pela festa da Virgen del Carmen, quando se realiza uma procissão pela aldeia com centenas de dançarinos interpretando mais de 30 danças locais, que recontam acontecimentos importantes da vila e da região desde o século XVI. Para isto tem uma série de disfarces e roupas, e pó que vimos no museu, o resultado é espetacular. Pronto, devidamente humilhados pela nossa falta de visão voltamos para a van e seguimos viagem.
Mais duas horas de caminho até chegarmos à entrada da Reserva da Biosfera de Manu. De um lado para o outro da montanha a paisagem muda, e de árida passa a verde. Do miradouro onde paramos era possível ver as nuvens que se levantam da zona do Amazonas por um fenómeno de evapotranspiração (palavra do guia, não minha), e recobrem a parte inicial da vegetação, dando-lhe o nome de bosque nublado.
A viagem seguiu rodeando as montanhas, numa estrada cada vez pior. O asfalto deu origem à terra batida, e mais tarde a lama. Dois sentidos onde mal cabe um carro. Cada vez que vinha um carro, ou mais frequentemente carrinha ou caminhão, era preciso fazer uma ginástica acrobática. Aqui não conhecem o conceito de berma ou rail de segurança, portanto vamos sempre olhando a ribanceira olhos nos olhos. A vegetação circundante foi se tornando cada vez mais frondosa, e o clima mais fresco e húmido. Paramos para almoçar por volta das duas, à beira da estrada, ao lado de uma queda de água linda,  com direito a mesa montada de frente para a vegetação.
Daí seguimos caminho, e cerca de meia hora depois, paramos. O guia deu sinal para sairmos com os binóculos, e apontou-nos na direção de um ramo. E  começamos então a ver os bonitos pássaros tropicais das fotos publicitárias. Um tangará de barriga amarela, e um verde. Fomos parando várias vezes, sempre que "spoteavam" um bichinho. O facto do motorista também estar à procura de aves assustou-me um pouco.
Não sei como conseguem fazê-lo. Com o carro em andamento um deles dá sinal, o carro pará, e saímos para ver aves escondidas na copa das árvores, de tal modo que temos alguma dificuldade em encontra-las com os binóculos. Olho muito treinado, imagino. Paramos várias vezes, para ver aves (uma espécie de  motmot - um pássaro grande de coloração azul iridescente e verde, com apenas duas penas na cauda; andean Guam - parece um faisão voador castanho; um bufo a dormir, lindo) e ainda que apenas um vislumbre, macacos. 
À nossa volta a vegetação transformou-se, árvores de copa alta que quase não deixavam espreitar o sol. E por esta altura já estávamos no meio da neblina, o que ao contrário de Macchu Picchu, tornava a experiência mais interessante. Relativamente à estrada, como a cada curva havia um pequeno curso de água, a determinada altura devem ter decidido que não valia a pena construir pontes, portanto a água simplesmente corre sobre a estrada. Não imagino como isto possa ser na altura das chuvas...
E finalmente, por volta das seis, todos já estourados, chegamos ao nosso pouso da primeira noite, o Bambu Lodge. No escuro parace ser engraçado. Casas de bambú, elevadas do chão, sem paredes, apenas rede mosquiteira (adeus privacidade) e casa de banho. Tudo muito limpo, e sem bichos. Não me levem a mal, eu vim para a selva para apreciar a  bicharada, mas não gostava de dormir com ela.  Mesmo assim, vi uma baratinha esgueirar-se para debaixo da cama, facto que resolvi ignorar.
Antes do jantar aproveitamos para inaugurar um novo jogo, Backpacker (hehehehe, get it?) com o quarto elemento, enquanto a intrépida companheira de viagem descansava um pouco. Depois jantar na casa comunitária, sopa de abóbora e massa com frango, cortesia do cozinheiro Luís.
No final, fomos terminar o jogo no nosso quarto, enquanto a intrépida companheira de dirigia para o seu. Assim que acendeu a luz ouviu-se um grito, e veio a correr para o nosso quarto. Tinha encontrado uma barata enorme pendurada no mosquiteiro da cama. Veio procurar apoio moral. Eu resolvi manter a calma e retirar os meus pertences do chão. E foi aí que descobriram (eles, não eu, que fiquei quietinha sentada em cima da cama) dois baratões na casa de banho, prontamente exterminados pela cada metade. Foi quando decidi dormir de luz acesa e sem baixar o mosquiteiro. Mas depois de ver a cara metade dormir o sono dos justos com o mosquiteiro colocado, e confirmar que este não tocava no chão, resolvi baixar também o meu. E passado um tempo, cheia de coragem, até apaguei a luz para dormir.

Inca trail part IV: it's not about the destination, it's about the journey (12/06/16)

No último dia não precisei de despertador. O ruído vindo da tenda comunitária, conversas abafadas e o barulho dos pratos e copos de estanho da mesa a ser posta, foi o suficiente para me acordar um pouco antes da hora combinada. Em modo rápido nos preparamos para a caminhada final. Ninguém queria ser responsável por atrasar a saída quer dos porteros, quer nossa.
Às 04:30, de lanterna na cabeça, fizemos as nossas despedidas da equipe e seguimos com o guia para a fila do controle. Ao longo do caminho fomos passando por vários postos de controle, onde o guia apenas precisava de mostrar os documentos. Neste último controle decidia-se tambem a ordem de entrada em Machu Picchu, e ninguém queria ficar para trás. Por isso, apesar de só abrir às 05:30, a grande maioria dos grupos já estava na fila a partir das 04h.
Do nosso campo até ao posto de controle foram dez minutos de caminho. Algumas equipes já tinham saído, a maioria ainda se preparava para o fazer. Com as lanternas frontais, à distância pareciam um enxame de pirilampos descoordenados. Quando chegamos ao controle cerca de 100 pessoas  estavam já sentadas na fila. Outras cem chegaram depois de nós. Ao longo da hora de espera a conversa inicialmente animada (último dia! Sobrevivemos! Vamos chegar a Machu Picchu daqui a pouco!) foi esmorecendo, as luzes apagando-,se, e um número crescente de pessoas aninhou-se no chão para dormir mais uns minutos. Vestidos com os casacos de frio e gorro, tentamos ignorar a chuva miudinha que caía. 
Finalmente a fila começou a andar às cinco e meia, ainda escuro. Em quinze minutos passamos o controle, e começamos o troço final do famoso caminho. Em passo quase de corrida fomos avançando, tentando apreciar o caminho, manter a velocidade e não cair no precipício. Após breve discussão entre o grupo decidimos que não tentariamos ultrapassar ninguém na trilha, mas quem parasse seria ultrapassado (tanto por uma questão de fair play como de segurança). À medida que o dia clareava e o calor se fazia sentir, os grupos a nossa frente foram parando para tirar os ponchos e capas de chuva. Nós conseguimos a proeza de tirar casacos e camisolas sem abrandar o ritmo, e ainda guarda-los na mochila em andamento. No final da hora e meia fazíamos parte do grupo dianteiro, e fomos dos primeiros grupos a chegar a Intipunku.
Aós todo este esforço, finalmente chegamos à Porta do Sol, para ver o astro rei banhar Machu Picchu logo pela manhã. E o que vimos foi... Absolutamente nada. A chuva miudinha tinha-se transformado em nevoeiro cerrado. Nem adivinhar as formas era possível. Só se via branco.
Tentando não perder o ânimo, encaramos o último km do caminho inca, aquele que nos levava finalmente a Machu Picchu. Durante o trajecto fomos tendo noção de quão mau era o nevoeiro pela conversa do guia: "Aqui normalmente se veria toda a cidade, daqui se veria este pormenor, daqui toda a paisagem montanhosa majestosa envolvendo a cidade inca". E fomos encontrando cada vez mais turistas. A determinada altura pareciam uma plantação de gnomos do jardim em designer colors, graças às capas de chuva compradas à entrada. Ao contrário do que eu pensava, Machu Picchu abre para todos às 06:00 da manhã, não só para a malta do trail. Tanta gente após 4 dias de isolamento social, em conjunto com a frustração de não ver um palmo à frente do nariz me deram vontade de ir para longe gritar até os pulmões sangrarem. Totalmente anti-climático. Banho de água fria. Não era assim que o meu caminho inca terminava. Quero o livro de reclamações.
Mas enfim, depois de 3 pacotes de Oreo voltei à razão e resolvi acreditar sem muita fé que o nevoeiro ia passar. E que assim recoberto de neblina o local assumia um ar de mistério que lhe ficava bem.  Lá começamos o passeio com o Carlos, vendo apenas a rocha em frente ao nosso nariz.
Primeiro falou-nos sobre os vários sectores de MP, e como funcionaria até ser abandonada pelos incas. Depois da descoberta "científica" por Hiram Bingham em 1911 (já era conhecido pelos habitantes locais). Do local onde começamos a visita conseguíamos apenas ver uns terraços agrícolas. Seguimos por aí até ao sector urbano, onde estavam os palacetes e o Templo do Sol (fabuloso, construído aproveitando uma falha na rocha), e depois subimos para o sector religioso, no topo da cidade. Volta e meia a neblina ficava ligeiramente menos espessa, e era quase possível adivinhar a existência de algo. Quase. Atravessamos para o sector das fábricas, e terminamos a visita guiada perto do Templo do Condor. Combinamos reencontrar o Carlos em Aguas Clientes por volta das 13h (eram quase 10h), sem grande esperança de que o tempo abrisse.
E de repente, apareceu a paisagem. Da parte mais baixa onde estávamos víamos as construções acima, imponentes, e as montanhas circundantes, o rio Urubamba serpenteando à volta das montanhas, selva até onde a vista alcançava. E percebemos porque é que Machu Picchu foi escolhido como uma das 7 maravilhas do mundo.
Tomados de um novo alento, decidimos reiniciar a visita, o que implicava subir novamente não às Portas do Sol (não havia pernas para isso), mas pelo menos até ao ponto mais alto da cidade. Mesmo assim muitos e muitos degraus, enfrentando milhares de turistas (subir uma escadaria íngreme e estreita atrás de uma excursão de terceira idade depois de tudo o que já tínhamos passado testou a nossa paciência, mas lá se aperceberam e nos deixaram ultrapassar). Finalmente chegamos ao ponto onde o Carlos tinha comentado "aqui é onde se tira a habitual foto de Macchu Picchu", e realmente a vista era extraordinária. Mesmo cheio de turistas. Esperamos a nossa vez, e aí ninguém nos tirava de lá, fotos de todo o jeito é maneira tiradas com o telemóvel, porque depois do Canyon de Colca nos apercebemos que os dois kilos da câmara pesam e muito ao fim de uns quantos kilometros. Mas a sorte ajuda os audazes. A jovem com um ar simpático a quem pedimos para nos tirar uma foto ofereceu-se para fotografar-nos com o seu maquinão e enviar a foto por email. Era só uma fotógrafa profissional. Score.
Recomeçamos a nossa visita, e ainda lá em cima a cara metade lembrou-se das garrafinhas de vinho do Porto que tinham sido surrupiadas do avião com o propósito de brindar ao final do Caminho Inca. Fizemos um belo brinde, sem querer saber que eram apenas dez e meia da manhã. E quase oferecemos o destino ao jovem que discretamente, sentado no terraço com uma vista deslumbrante, tinha pedido em casamento a jovem ao seu lado. Depois pensámos melhor e resolvemos só beber o resto.
Revimos toda a cidade, desta vez podendo apreciar as vistas. Ninguém diria que tínhamos feito 4 dias de caminhada, 42 km, 9000 degraus, pela velocidade com que andávamos de um lado para outro.
Satisfeitos, apanhamos o autocarro para Águas Clientes. Meia hora para fazer 8 km, num zigzag com curvas em ângulos agudos, num estrada de terra batida só pavimentada nas curvas. Adormeci para não entrar em paranóia.
O povoado de Águas Calientes (ou Pueblo de Macchu Picchu, não percebi bem) ė engraçadinho e altamente turístico. Só tivemos tempo de ver o restaurante (pizza!!) e o caminho para a estação de comboio, onde nos despedimos do nosso guia e apanhamos o Inca Rail para Ollantaytambo.
A viagem de comboio é interessante, apesar de durar 1:45 faz lembrar as grandes viagens de comboio, pela carruagem retro e serviço cuidado. E este é só o comboio turístico, não é o luxuoso Hiram Bingham que custa 700 dólares pelo mesmo trajecto. A linha acompanha o rio Urubamba, e a paisagem na primeira hora é espetacular, montanhas recobertas de selva, tornadas fáceis de apreciar pelas janelas panorâmicas no tecto.
Em Ollantaytambo fomos esperados por um motorista simpático com um cartaz com os nossos nomes (faz-me sempre sentir especial). Mais uma hora e meia até Cusco, passada a dormir.
E finalmente, hotel e um banho quente. Os meus músculos cansados agradeceram, o meu cabelo parecia humano novamente, e metade daquilo que eu queria acreditar que era bronzeado foi pelo cano abaixo.
Depois de um ano de preparação e expectativa, tinha completado o caminho inca. Com esforço, alguma dificuldade, muitos palavrões.

Inca trail, part III: Stairway to heaven (11/06/16)

Apesar de toda preparação para o frio (saco cama cromo, thermal mat, "garrafa de água quente", roupa térmica), ainda consegui acordar com frio duas ou três vezes durante a noite. Mas o cansaço era tanto que simplesmente me virei para o lado e adormeci outra vez. Despertar às cinco e meia, com o matte de coca, banho de toalhetes, pequeno almoço reforçado e vamos embora. A chuva miudinha/orvalho que caiu durante a noite mantinha-se, portanto decidi utilizar o equipamento impermeável, já que o tinha carregado.
O terceiro dia é o mais longo, mas também o mais variado. Ainda a digerir o chocolate quente começamos a subir em direção a Runkurakay, também conhecido como o segundo paso (segundo ponto mais alto). Eu pensava que as subidas já tinham acabado... O verdadeiro caminho inca é tramado: degraus de altura irregular, uns baixos outros altíssimos, em escadarias que nunca mais acabam. Ao fim de 10 minutos começei a pensar que os conquistadores espanhóis tiveram alguma razão, os incas eram uns filhos da p€#@. Isto tudo debaixo de chuva. O Carlos ainda nos tentou convencer que era orvalho mas não, definitivamente chuva. Não bastava a dificuldade inerente ao caminho, ainda tinhamos que nos preocupar com piso escorregadio... Depois de 15 minutos a tropeçar no poncho e a morrer de calor no interior resolvi só ficar molhada e paciência. No entanto, depois de aquecermos conseguimos entrar num bom ritmo, e a subida levou apenas 45 minutos. Ainda tivemos a oportunidade de ver um veado pastando ao lado do caminho, natureza no seu melhor.
Pausa obrigatória para recuperar o fôlego (ainda eram 3800m de altitude), fotografia obrigatória e bolachinha do reconforto. Iniciamos então o percurso até Sayaqmarka, próximo objetivo, a hora e meia de distância (sim, porque os guias nunca falam em km, medem a distância em tempo, o que é altamente irritante). Neste trajecto o caminho começou a ser novamente envolvido pela selva. Degraus para cima, degraus para baixo, com a trilha sonora de pássaros e insectos para nos acompanhar, fomos fazendo o caminho. Depois de no dia anterior ter visto mais beija-flores do que em toda a minha vida, vi o maior de todos, de peito azul e asas verdes. Fabuloso.
Uma vez chegando às ruínas de Sayaqmarka, o que é que nos esperava? Pois é, mais uma escadaria anti-invasores, íngreme, com degraus de 20 cm de largura. Subida cuidadosa, encostados à montanha, porque do outro lado só havia espaço e bem mais abaixo selva.
Sayaqmarka parece ter sido uma fortaleza, um entreposto comercial, local religioso e basecamp para os incas que realizavam a peregrinação anual até Machu Picchu. Fica no topo de uma montanha, dominando todos os quadrantes. Imponente. E aí pudemos ver que o caminho inca não era apenas um, mas sim centenas, o que nós fazemos é apenas aquele que se considerou mais apto para conservação. Das traseiras das ruínas, na direção oposta daquela por onde chegamos, observa-se o início de uma escadaria esculpida na montanha, coberta pela vegetação. Que vontade de seguir esse caminho... Infelizmente, o panamá e o chicote ficaram na mochila grande, no hotel em Cusco.
Depois do momento cultural, mais meia hora de caminho até ao acampamento, passando por umas pequenas ruínas cujo nome já não me recordo.
Por esta altura o caminho inca tornou-se aquilo que eu imaginava: um pequeno caminho empedrado, quase escavado na montanha, com precipício do outro lado caindo sobre a floresta subtropical, com curvas e contra curvas, e um tecto de vegetação. O principal problema era conseguir apreciar a paisagem e ao mesmo tempo ver onde punha os pés...
Quando chegamos ao campo de Chaquiqocha a tenda comunitária/cozinha já estava montada, mas ainda faltavam 30 minutos para o almoço (afinal, eram 11 da manhã). Mas devido ao frio e chuva miudinha optamos por ficar sentados "à mesa", a descansar as pernas e aquecer o corpo até ao almoço.
Desta vez, dado o longo caminho e tempo desagradável, não houve espaço para sesta
Meia hora a subir até ao terceiro passo, Phuyupatamarka, a 3670m de altitude, e depois, a partir daí, sempre a descer. Começavam as infames "gringo killers", duas horas e meia de degraus maldosos, famosos por destruir joelhos e almas. O que ninguém diz é que este trajecto é um dos mais bonitos do caminho, feito sempre no meio da selva, passando por paisagens lindíssimas e até por um túnel inca (uma parede aproveitada da falha natural da pedra, a outra escavada, e os degraus escavados na pedra). 
Começamos devagarinho, em respeito aos joelhos lesionados. O quarto elemento resolveu aprender com os porteros, e sair galgando degraus escadaria abaixo. Chegou inteiro ao destino, uma hora antes do resto. Aliás, os porteros desciam as escadas de um modo perfeitamente assustador, a uma velocidade incrível, mal pousando os pés nos degraus, num embalo que dificilmente seria traçado caso necessário. Ao grito "portero!" todos nos encostavamos ao lado da montanha, e os víamos a passar. Sempre que passavam os nossos, claque e gritos de apoio.
Muito devagarinho, porque não bastava a irregularidade dos degraus também tinhamos de ter em conta o factor chuva, fomos descendo calmamente. A envolvência era demasiado bonita para nos fixarmos apenas nos pés. Apesar de nos termos cruzado com outros grupos, a grande parte da descida foi feita com apenas o nosso pequeno grupo a tomar conta do caminho.
E assim chegamos ao último ponto de encontro por volta das 15. O guia vinha em modo carro vassoura, descendo calmamente a ouvir música e na conversa com os outros guias , mas apanhava-nos sempre nos 10 minutos finais do trajecto. Encontramos o quarto elemento, vimos umas ruínas ao longe, na realidade apenas terraços agrícolas,e o Carlos decidiu por nós que não valia a pena passar mais perto, tendo em conta que ali tinhamos um atalho utilizado pelos porteros que nos levava directamente ao ultimo acampamento. As pernas cansadas agradeceram.
Para não variar, quando chegamos a Winaywayna às 16h já estava tudo pronto, e fomos recebidos com o caloroso aplauso dos porteros, por termos ultrapassado mais uma etapa. Aqui, organizados à volta dos servicios estavam vários campos, sendo o local onde todas as equipes dormem na última noite. Uma aldeia de campanha, montada e desmontada em poucas horas. Os meninos corajosos foram tomar banho de água fria nos servicios, as meninas esquisitas ficaram-se pelos toalhetes.
Rapidamente chegou a hora do "tea", seguido de um animado jogo de Dobble. A algazarra foi tanta que os porteros vieram espreitar, e acabaram por jogar também conosco. É a vantagem de um jogo baseado apenas em imagens, torna a explicação fácil apesar da barreira linguística.
Mais um jantar saboroso, com sabor a final de férias. Tinhamos quase completado o caminho inca, ultrapassado a subida da Mulher Muerta e a descida das Gringo Killers. Com esforço, sem dúvida, mas amplamente recompensado pela experiência.
No final do jantar, a típica cerimónia de despedida da equipe foi na verdade um dois em um, em que fomos finalmente apresentados formalmente aos porteros. Gente honesta, do campo, de uma vila a norte de Cusco, a 4000m de altitude, durante a época turística trabalham como porteros, no resto do ano são agricultores. Pelo trabalho pesadíssimo que fazem ganham 300 soles. Cada um tem uma função específica, carregando uma parte do equipamento: um leva a tenda comunitária, outro as tendas pessoais, vários deles levam os víveres, e outro todo o material da cozinha. Depois do jantar agradeceram-nos por sermos um bom grupo, que respeitou as horas (muito importante para eles). E nós agradecemos por terem tratado de tudo para que pudéssemos preocupar-nos apenas com o caminho. E demos uma boa gorjeta, porque realmente foram impecáveis.
No último dia os caminhos separam-se: nós seguimos para Machu Picchu e os porteros vão apanhar o comboio de regresso a Ollantaytambo noutra povoação. Para que eles cheguem a horas ao comboio, e para que nós cheguemos cedo ao controle antes de entrar em Machu Picchu, há que acordar bem cedo. Tipo três e meia da manhã.
Portanto depois da nossa cerimónia de encerramento, lavar os dentes com água fervida, fazer o xixi da noite no wc ecológico (que é como quem diz na natureza) e enrolar no saco cama, que às 19:30 já íamos dormir à pressa.

Inca trail, part II: Judgement Day (10/06/16)

Uma das várias vantagens de ganhar um salário é por norma ter dinheiro para pagar um hotel nas férias. Portanto gastar o dinheirinho que tanto custou a ganhar a pagar a pessoas para me obrgarem a um esforço físico para além da minha condição e ainda por cima dormir em tendas é um contrasenso. Mas vale a pena quando se acorda e vê a paisagem fabulosa com que fomos brindados hoje: o monte Veronica com o seu gelo eterno (vamos ver por quando mais tempo) no topo, cėu azul, e um filho da mãe de um galo que não parou de cantar desde as quatro e meia da manhã.
Às cinco e meia da manhã Jorge, o cozinheiro, acordou-nos com matte de coca deixado à porta da tenda, para dar energia para o dia. Sem água quente, tomamos banho de toalhetes. Neste caminho não se pode ser muito esquisito... A cheirar a bebé seguimos para o pequeno-almoço, para não variar reforçado. Quando saímos a nossas pequena citadela já tinham sido desmontada.
Um pouco a medo, lá começamos o trajecto do dia às seis e meia da manhã, a infame subida até ao Paso de la Mujer Muerta, a 4200m de altitude. Quatro horas e 6 km a subir. A primeira hora foi tranquila, a andar devagar e respirar com calma. O primeiro troço ainda passava por algumas populações, cada vez mais raras. Aqui só se chega e sai a pé ou de burros, e o maior entretenimento parece ser ver os parvos que pagam para caminhar a passar.  Em uma hora de subida aceitável chegamos a Ayapata, outra zona de acampamento, e fizemos a primeira paragem do dia. Dez minutos, nada de mais, só beber uma aguinha, reajustar os sapatos.
Aqui o nosso guia Carlos nos deu indicações sobre o troço seguinte, até Llulluchapampa. A subida começava a ser mais íngreme, e composta de degraus. Para ele, a pior parte da subida (conversa de guia, como veremos mais adiante). Tempo esperado: duas horas. Foi aí que a cara metade resolveu experimentar mascar as folhas de coca que nos tinham recomendado, e que os porteros mascavam incessantemente. Doping, portanto. O Carlos lá explicou como se fazia uma bolinha com as folhas, e ele iniciou a subida com mais energia.
Entusiasmados com o sucesso do primeiro troço, seguimos caminho. Fomos nos afastando da população e começando a subir no meio de vegetação, com a luz da manhã a espreitar entre a folhagem, temperatura fresca. O caminho nesta área parece saído de um filme do Indiana Jones: escadarias de pedra perdidas no meio da selva. Sempre acompanhados pelos tributários do rio Urubamba, com o som da água a correr a ajudar a refrescar.
Neste trajecto as coisas começaram a complicar. Subimos sempre devagarinho, eu sempre com medo de um piripaque semelhante ao do Colca. Precisamos de umas quantas paradas estratėgicas (momento para aproveitar a paisagem e tirar fotos), e uma paragem oficial de 10 minutos, com direito a Oreos para dar energia. Aí já começavamos a ver mais gente, o que não ocorreu na primeira parte. Fomos ultrapassando e sendo ultrapassados várias vezes pelo caminho. E num tempo fabuloso de hora e meia chegamos a Llulluchapampa.
Mesmo antes de chegar, fomos surpreendidos por llamas a pastar alegremente ao lado do caminho. Segundo o guia, são os animais de estimação das duas pessoas que moram em Llulluchapampa, daí não se incomodarem com as pessoas.
Neste campo paramos à séria, meia hora. Esvaziamos parcialmente as mochilas, comendo chocolates, Oreos, frutos secos. Compramos água. E quando prepadados, encaramos o inimigo de frente: a última subida do dia, uma hora e meia até aos 4200m, o famoso Paso de la Mujer Muerta. De onde estavámos era possível ver as pessoas pequeninas à distância, lá em cima. E o trajecto para lá chegar.
Dada a boa experiência da cada metade, eu resolvi experimentar também as folhas de coca. O sabor é semelhante ao do matte, mas não me orientei com aquilo. Mastiguei demasiado e em 2 segundos tinha o equivalente a uma pastilha gorila quando se está a desfazer. Lixo, não aprovado.
Começamos a subir bem bem devagarinho. Passados alguns minutos o nosso quarto elemento chegou à conclusao que se cansava mais assim, e ligou o turbo. Só o voltamos a ver no topo. Para nos, o animal xamã era a tartaruga artritica. Um passinho pequenino depois do outro. A subida, para além da inclinacao e dos degraus, ainda leva com o sol directo. Parando muitas vezes para água e recupera o fôlego fomos subindo, um metro de cada vez. Enquanto isso eramos ultrapassados por porteros com 25kg nas costas, a conversarem alegremente e a nos darem palavras de apoio (penso eu, a maioria fala Quechua, mas pelos sorrisos e gestos vou só assumir que sim).
E ao fim de uma hora e quinze, os ultimos 50 metros. Terriveis. Pensei que não aguentava. Com o quarto elemento no topo das escadas a gritar palavras de encorajamento consegui arrastar-me aqueles ultimos degraus. Excruciante.
Primeira sensacao: frio!!!! Depois finalmente apreciar a vista. De um lado, todo o caminho que fizemos, com a Veronica ao fundo; do outro, um vale misterioso e verde, recoberto em neblina. Onde estavámos as nuvens passavam por nós.
Depois de 3 minutos a apreciar a beleza natural, atacamos os doces. Nunca uma bolacha me soube tão bem. Recuperados, passamos às inevitaveis fotos. E em quinze minutos começamos a descida.
Até aqui o caminho inca não é na realidade o caminho feito pelos incas, mas sim um caminho utilizado pelas populações locais. Mas a partir da Mujer Muerta estamos no verdadeiro caminho inca.
Descemos devagarinho, na conversa, em respeito aos dois joelhos lesionados do grupo. O quarto elemento, que não quis a coca mas deve ter arranjado anfetaminas com outro grupo largou à frente em passo de corrida. A descida também era envolvida por uma bonita paisagem silvestre, com montanhas a ladearem a descida para o vale.
Em duas horas, um pouco mais do que o esperado, chegamos ao acampamento. Desta vez uma coisas em grande, com os vários grupos lado a lado, cada um no seu terreno. Nós, pobrezinhos, estavámos no fundo da descida. No entanto, mais perto do wc. Fomos recebidos pelos porteros com um copo de chicha morada e aplausos simpaticos, e com o acampamento montado. O almoço saiu quase instataneamente, sopa e bife. Depois, uma merecida sesta.
Antes do "tea", às cinco ainda tivemos tempo para um momento "Africa minha", com a intrépida companheira de viagem a lavar o cabelo do quarto elemento com bacias de água, ele de longe o mais incomodado com a falta de banho, sob o olhar espantado dos guias e porteros da zona. Principalmente porque estava a começar a chover...
Mais uma vez pipocas e torradas, seguido de um jogo disputado de Dobble na tenda comunitaria (conseguimos ensinar o guia a jogar também). Nem nos demos conta que já era hora de jantar. Refeiçåo rapida mas saborosa, seguido de distribuição de "garrafas de água quente" (água fervida para nos aquecer na tenda, que hoje é a noite mais fria, a 3600m, e que amanha serve para beber). E saímos rapidamente da tenda comunitária/cozinha, pois aí dormem os porteros. E fomos para as tendas dormir também, que amanhã é o dia mais longo, 16km, incluindo os famosos "gringo killers".