No último dia não precisei de despertador. O ruído vindo da tenda comunitária, conversas abafadas e o barulho dos pratos e copos de estanho da mesa a ser posta, foi o suficiente para me acordar um pouco antes da hora combinada. Em modo rápido nos preparamos para a caminhada final. Ninguém queria ser responsável por atrasar a saída quer dos porteros, quer nossa.
Às 04:30, de lanterna na cabeça, fizemos as nossas despedidas da equipe e seguimos com o guia para a fila do controle. Ao longo do caminho fomos passando por vários postos de controle, onde o guia apenas precisava de mostrar os documentos. Neste último controle decidia-se tambem a ordem de entrada em Machu Picchu, e ninguém queria ficar para trás. Por isso, apesar de só abrir às 05:30, a grande maioria dos grupos já estava na fila a partir das 04h.
Do nosso campo até ao posto de controle foram dez minutos de caminho. Algumas equipes já tinham saído, a maioria ainda se preparava para o fazer. Com as lanternas frontais, à distância pareciam um enxame de pirilampos descoordenados. Quando chegamos ao controle cerca de 100 pessoas estavam já sentadas na fila. Outras cem chegaram depois de nós. Ao longo da hora de espera a conversa inicialmente animada (último dia! Sobrevivemos! Vamos chegar a Machu Picchu daqui a pouco!) foi esmorecendo, as luzes apagando-,se, e um número crescente de pessoas aninhou-se no chão para dormir mais uns minutos. Vestidos com os casacos de frio e gorro, tentamos ignorar a chuva miudinha que caía.
Finalmente a fila começou a andar às cinco e meia, ainda escuro. Em quinze minutos passamos o controle, e começamos o troço final do famoso caminho. Em passo quase de corrida fomos avançando, tentando apreciar o caminho, manter a velocidade e não cair no precipício. Após breve discussão entre o grupo decidimos que não tentariamos ultrapassar ninguém na trilha, mas quem parasse seria ultrapassado (tanto por uma questão de fair play como de segurança). À medida que o dia clareava e o calor se fazia sentir, os grupos a nossa frente foram parando para tirar os ponchos e capas de chuva. Nós conseguimos a proeza de tirar casacos e camisolas sem abrandar o ritmo, e ainda guarda-los na mochila em andamento. No final da hora e meia fazíamos parte do grupo dianteiro, e fomos dos primeiros grupos a chegar a Intipunku.
Aós todo este esforço, finalmente chegamos à Porta do Sol, para ver o astro rei banhar Machu Picchu logo pela manhã. E o que vimos foi... Absolutamente nada. A chuva miudinha tinha-se transformado em nevoeiro cerrado. Nem adivinhar as formas era possível. Só se via branco.
Tentando não perder o ânimo, encaramos o último km do caminho inca, aquele que nos levava finalmente a Machu Picchu. Durante o trajecto fomos tendo noção de quão mau era o nevoeiro pela conversa do guia: "Aqui normalmente se veria toda a cidade, daqui se veria este pormenor, daqui toda a paisagem montanhosa majestosa envolvendo a cidade inca". E fomos encontrando cada vez mais turistas. A determinada altura pareciam uma plantação de gnomos do jardim em designer colors, graças às capas de chuva compradas à entrada. Ao contrário do que eu pensava, Machu Picchu abre para todos às 06:00 da manhã, não só para a malta do trail. Tanta gente após 4 dias de isolamento social, em conjunto com a frustração de não ver um palmo à frente do nariz me deram vontade de ir para longe gritar até os pulmões sangrarem. Totalmente anti-climático. Banho de água fria. Não era assim que o meu caminho inca terminava. Quero o livro de reclamações.
Mas enfim, depois de 3 pacotes de Oreo voltei à razão e resolvi acreditar sem muita fé que o nevoeiro ia passar. E que assim recoberto de neblina o local assumia um ar de mistério que lhe ficava bem. Lá começamos o passeio com o Carlos, vendo apenas a rocha em frente ao nosso nariz.
Primeiro falou-nos sobre os vários sectores de MP, e como funcionaria até ser abandonada pelos incas. Depois da descoberta "científica" por Hiram Bingham em 1911 (já era conhecido pelos habitantes locais). Do local onde começamos a visita conseguíamos apenas ver uns terraços agrícolas. Seguimos por aí até ao sector urbano, onde estavam os palacetes e o Templo do Sol (fabuloso, construído aproveitando uma falha na rocha), e depois subimos para o sector religioso, no topo da cidade. Volta e meia a neblina ficava ligeiramente menos espessa, e era quase possível adivinhar a existência de algo. Quase. Atravessamos para o sector das fábricas, e terminamos a visita guiada perto do Templo do Condor. Combinamos reencontrar o Carlos em Aguas Clientes por volta das 13h (eram quase 10h), sem grande esperança de que o tempo abrisse.
E de repente, apareceu a paisagem. Da parte mais baixa onde estávamos víamos as construções acima, imponentes, e as montanhas circundantes, o rio Urubamba serpenteando à volta das montanhas, selva até onde a vista alcançava. E percebemos porque é que Machu Picchu foi escolhido como uma das 7 maravilhas do mundo.
Tomados de um novo alento, decidimos reiniciar a visita, o que implicava subir novamente não às Portas do Sol (não havia pernas para isso), mas pelo menos até ao ponto mais alto da cidade. Mesmo assim muitos e muitos degraus, enfrentando milhares de turistas (subir uma escadaria íngreme e estreita atrás de uma excursão de terceira idade depois de tudo o que já tínhamos passado testou a nossa paciência, mas lá se aperceberam e nos deixaram ultrapassar). Finalmente chegamos ao ponto onde o Carlos tinha comentado "aqui é onde se tira a habitual foto de Macchu Picchu", e realmente a vista era extraordinária. Mesmo cheio de turistas. Esperamos a nossa vez, e aí ninguém nos tirava de lá, fotos de todo o jeito é maneira tiradas com o telemóvel, porque depois do Canyon de Colca nos apercebemos que os dois kilos da câmara pesam e muito ao fim de uns quantos kilometros. Mas a sorte ajuda os audazes. A jovem com um ar simpático a quem pedimos para nos tirar uma foto ofereceu-se para fotografar-nos com o seu maquinão e enviar a foto por email. Era só uma fotógrafa profissional. Score.
Recomeçamos a nossa visita, e ainda lá em cima a cara metade lembrou-se das garrafinhas de vinho do Porto que tinham sido surrupiadas do avião com o propósito de brindar ao final do Caminho Inca. Fizemos um belo brinde, sem querer saber que eram apenas dez e meia da manhã. E quase oferecemos o destino ao jovem que discretamente, sentado no terraço com uma vista deslumbrante, tinha pedido em casamento a jovem ao seu lado. Depois pensámos melhor e resolvemos só beber o resto.
Revimos toda a cidade, desta vez podendo apreciar as vistas. Ninguém diria que tínhamos feito 4 dias de caminhada, 42 km, 9000 degraus, pela velocidade com que andávamos de um lado para outro.
Satisfeitos, apanhamos o autocarro para Águas Clientes. Meia hora para fazer 8 km, num zigzag com curvas em ângulos agudos, num estrada de terra batida só pavimentada nas curvas. Adormeci para não entrar em paranóia.
O povoado de Águas Calientes (ou Pueblo de Macchu Picchu, não percebi bem) ė engraçadinho e altamente turístico. Só tivemos tempo de ver o restaurante (pizza!!) e o caminho para a estação de comboio, onde nos despedimos do nosso guia e apanhamos o Inca Rail para Ollantaytambo.
A viagem de comboio é interessante, apesar de durar 1:45 faz lembrar as grandes viagens de comboio, pela carruagem retro e serviço cuidado. E este é só o comboio turístico, não é o luxuoso Hiram Bingham que custa 700 dólares pelo mesmo trajecto. A linha acompanha o rio Urubamba, e a paisagem na primeira hora é espetacular, montanhas recobertas de selva, tornadas fáceis de apreciar pelas janelas panorâmicas no tecto.
Em Ollantaytambo fomos esperados por um motorista simpático com um cartaz com os nossos nomes (faz-me sempre sentir especial). Mais uma hora e meia até Cusco, passada a dormir.
E finalmente, hotel e um banho quente. Os meus músculos cansados agradeceram, o meu cabelo parecia humano novamente, e metade daquilo que eu queria acreditar que era bronzeado foi pelo cano abaixo.
Depois de um ano de preparação e expectativa, tinha completado o caminho inca. Com esforço, alguma dificuldade, muitos palavrões.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Inca trail part IV: it's not about the destination, it's about the journey (12/06/16)
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