Para não variar, a pé a horas indecentes. Luz na testa, mochila arrumada, subimos para o pequeno almoço. Pão com queijo e fiambre, para dar energia, e matte de coca para não variar. E uma pequena prenda do Hans, um pacote de Oreos para cada um.
Às quatro e meia, ainda noite cerrada, começamos a caminhada. Eu sem grandes queixas (nota mental: pedir desculpas à minha PT por todas as vezes que a insultei em surdina), uma banda ilio-tibial e uma instabilidade articular a ganir baixinho no grupo. A primeira etapa foi tranquila, temperatura agradável, passo a um ritmo aceitável. Mais uma travessia Indiana Jones, pausa para tirar a primeira camada (mesmo para friorentas como eu), e seguimos montanha acima. Passo agora mais lento, atenção totalmente focada no caminho e no passo seguinte, a respiração controlada. Uma vantagem da caminhada às escuras, não há distrações.
A primeira hora passou sem grandes dificuldades. De repente surgiu um esboço de claridade atrás do canyon, e uns metros mais acima, uma imagem fabulosa com a lua nova a espreitar por cima do canyon e o sol a nascer ao lado. Passado pouco tempo já se começava a sentir o calor solar.
E de repente, começou a faltar-me o ar. Primeira paragem a pedido. Nova tentativa de recomeçar, novo gasping. Mistura de altitude e nariz entupido (fechado com coágulos devido a uma pequena hemorragia na noite anterior), não sei ao certo. Apenas que não conseguia andar mais rápido do que uma tartaruga artrítica. Vingança para todos aqueles que me acusam de andar demasiado rápido. Só me lembrava dos tempos da mononucleose, a sensação de andar debaixo de água. E nem os vários anos de yoga serviram para me ajudar a respirar. A segunda metade da subida foi dolorosa, melhorando nas partes planas e agravando com qualquer inclinação. Ao menos a recuperação era rápida, 30 segundos parada era o suficiente para recuperar o fôlego. A cada metade passou para modo carro vassoura, a assegurar-se que eu não caia precipício abaixo. O guia e os restantes elementos do gangue foram andando, parando de tempos a tempos para nos dar oportunidade de os apanhar. O Hans sempre com a sua conversa positiva, só faltam 20 min, só faltam duas curvas, estamos quase lá. O car@€%& que estávamos quase lá. Confesso que nem parei para ver as vistas. Um passo a seguir ao outro, breathe in breathe out. E ao fim de 4 horas excruciantes, finalmente era verdade. No final o guia ofereceu-me álcool etílico para inalar, segundo ele uma cura para as dificuldades respiratórias. Não sei se foi a absorção do álcool pela mucosa, ou se aquilo realmente resulta, apenas que me senti melhor.
Depois dos 6km de subida, mais 2km pela estrada até ao ponto de partida, o tal restaurante/estalagem. Por essa altura já me sentia totalmente recuperada, e pensava apenas na rede do restaurante para me esticar (e no wc, que era bastante decente, algo raro por estas bandas). Parte final feita na galhofa, com uma sensação de realização pessoal, de desafio cumprido. Ninguém quis estragar o momento com a dúvida que assolava todos, que era "nunca na vida vamos sobreviver ao caminho inca, aqui foram dois dias e estamos quase mortos, quanto mais quatro".
Pequeno almoço de lord, depois uns momentinhos de pausa na rede, para recuperar.
Daí em diante o dia foi basicamente passado no autocarro, entre o sono e vigília.
Uma pausa de cinco minutos para ver onde começa o canyon, e os socalcos cultivados (muito bonito, manta de retalhos em vários tons de verde e castanho). Mais uma soneca. Pausa em Maca para ver a igreja e o mercado, e provar Colca Sour (feito com uma fruta local, ácida, not for me). Uma das imagens mais surreais da viagem: uma estátua na praça da igreja de uma senhora vestida com os trajes locais com um militar com uma máscara de luchador amarrado nas costas. WTF? Fica a foto para provar a sua existência. Daí mais uma sesta, e chegamos às termas. Uma hora de molho em água a 37o finalmente me permitiram dobrar os joelhos em condições. O alívio dos músculos abusados era visível na cara de todos. Daí, corrida até Chivay, cidade feia cuja única função é servir de porta de entrada para a região do Colca. Uma vez que tivemos que optar entre termas e tempo para almoçar, saímos a correr do autocarro atrás do Hans, até a um restaurante tipo buffet, onde enviamos comida sem grande discernimento em to go boxes, e fomos novamente a correr para apanhar um autocarro diferente que nos levaria a Puno. Despedimo-nos do Hans e voltamos novamente ao modo viajante plus. O único autocarro que partia a uma hora adequada para nós era um autocarro turístico, caro e cheio de turistas mais velhos de ar distinto. Mas também com espaço, ar condicionado e assentos confortáveis, que o anterior não tinha. Além disso, com direito a paragens para ver as vistas pelo caminho. Para mim, só serviu para interromper o sono.
A senhora ia descrevendo as paisagens e falando sobre a cultura local. Quando atingimos os 4000m a respiração ficou mais rápida, mas fora isso nada. Paragem para ver vulcões. Blah. Mais um hora de caminho, no altiplano. Planícies intermináveis, sem vegetação, só um rastro amarelado. Nova paragem na Lagunilla, um lago de água doce cheio de flamingos a 4100m de altitude. Muito bonito, mas visto da janela do autocarro. Demasiado frio e demasiada preguiça. Na paragem seguinte, primeira baixa. Uma das senhoras a necessitar de oxigénio. Nós por enquanto ok.
Finalmente chegamos a Puno, após 6 horas de viagem. Mais uma cidade feia. Mais do que isso, pobre. Casas de tijolo, com ar pouco habitável, muita gente na rua, poucos carros, muitos táxis. Assim que saímos do autocarro fomos avaliados por ofertas de táxis, hotéis e tours, mas logo vimos o sinal "Aline Vas". Uma das formas como se percebe que os turistas por aqui são aldrabados com frequência é no facto de até um hostal mega budget como o nosso fornecer um transfer à chegada.
A viagem até ao hostal não foi grande coisa, o senhor simpático explicou-nos que poderíamos passear duas ruas acima e duas ruas abaixo do hostal, mas não mais. Oh joy.
A altitude, que até esse momento não tinha incomodado muito, fez-se sentir com força ao subirmos os dois andares de escada até aos quartos. Outra vez, podia-se utilizar o argumento do cansaço após a caminhada, as mochilas pesadas, mas nem isso justificava a dificuldade em andar e respirar. Claramente a vida por Puno teria de ser bastante calma.
Mochilas arrumadas, saímos para jantar. Qualquer coisa segura e perto. O hostal ficava a 1 quarteirão da Plaza de Armas e da principal rua pedonal. Entramos na primeira coisa que apareceu, uma pizzaria andina. Eu fiquei me por uma canja, o resto comeu pizza com muito bom aspecto.
Na volta fomos inquiri acerca das tours pelo Lago Titikaka. A tour de duas ilhas, até Taquille, saía às 06:45 da manhã. Chumbada imediatamente. Ninguém reunia condições para isso. E a atitude obriga a descanso. Portanto, saída no dia seguinte às 12h até às ilhas flutuantes dos Uros.
A subida das escadas foi risível. Autêntica brigada do reumático. Um a mancar desta perna, o outro a arrastar a outra, ridículo.
Uma vez no quarto, preparei -me para um banho quente fabuloso, para lavar o pó. De acordo com os intrépidos viajantes que tinham tomado banho antes do jantar, o chuveiro era divinal, só precisava de algum tempo para aquecer. Cinco, dez, quinze minutos e nada. Água cada vez mais fria. Conclusão: não há água quente depois das 22h. E estavam 0o na rua, poucos mais no quarto. O pedido de aquecedor foi negado, pois já estavam todos emprestados. No fu@#€%& way que ia tomar banho frio. Depois de uma birra, decidi tomar banho de toalhetes. Serve de treino para o caminho inca. E fui dormir ainda meia coberta de pó mas a cheirar a rabinho de bebé.
domingo, 5 de junho de 2016
You take my breath away (03/06/16)
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