quinta-feira, 16 de junho de 2016

Golden gods and guinea pigs (06/06/16)

Viajar em grupo nem sempre é facil. Mas nestas férias tudo se parece conjugar, até o despertar generalizado. Sem grande esforço, estávamos a tomar o pequeno-almoço às 08:30. Dia com objectivos: walking tour pelo centro, organizar um passeio pelo Vale Sagrado, e passar na agência que tratou do Inca Trail para aliviarmos as várias dúvidas que nos pesavam no coração (nomeadamente quanto podemos despachar para os porters carregarem, já que a trilha nos começava a parecer quase impossível mesmo sem nada às costas).
O walking tour foi interessante, focando-se principalmente na zona à volta da Plaza de Armas. O guia, um indígena (como se intitulam por aqui), forneceu informações muito interessantes, sempre com uma nota de revolta subjacente. Realmente a conquista espanhola e portuguesa foram muito diferentes. É como na tourada: os espanhóis matam o touro, os portugueses só chateiam. E no Brasil não havia uma cultura da dimensão da Inca. Foi doloroso ouvir contar a destruição dos templos de Cusco para construir  igrejas sobre as mesmas fundações. But Karma is a bitch. Cem anos depois da fundação da Cusco espanhola, o terremoto de 1650 destruíu toda a cidade, ficando apenas em pé as fundações e paredes incas. Alguém tinha mad skills em construir em zonas sísmicas... Mas enfim, lá se reconstruiu tudo em modelo colonial, para voltar a cair com o sismo de 1950.
Um dos pormenores interessantes que o guia apontou e que não nos tínhamos apercebido nas deambulações do dia anterior foram as paredes incas. Inclinadas para trás cerca de 10-15o, dos lados a mesma coisa. Blocos de pedra basáltica enormes, de forma irregular mas orgânica, que se ligavam sem necessidade de cimento ou argamassa, numa junção quase perfeita. E aparentemente ali há largas centenas de anos, sobrevivendo a colonizadores e terremotos. Ouvimos várias teorias de como seriam esculpidas as pedras, e transportadas da pedreira (lá longe nas montanhas) até ao local de construção, incluindo viagens alucinogénicas com coca e ayuhasca, mas outra vez, o mais facil é acreditar em aliens...
Como na outra walking tour, o destino final foi um restaurante, onde tivemos uma pequena aula de culinária. Se não me mentiram (e penso que não, porque pude provar o produto final), fazer ceviche pareceu extremamente simples e rápido. Senti-me motivada a tentar quando voltar para casa (ou simplesmente a ir à Cevicheria do Príncipe Real, logo veremos). De qualquer modo, também como da primeira vez, as duas horas a andar associadas a promessa de comida apetitosa convenceram-nos a ficar a almoçar no tal restaurante. E foi outra vez uma boa aposta. Ceviche mixto, arroz de marisco, causa de pollo e mais umas quantas coisas apetitosas cujo nome já não me recordo. E aproveitamos para finalmente provar Inca Cola, o refrigerante local, de cor amarelo canário. Sabe a uma mistura de guaraná com tutti frutti, extremamente doce mas até agradável.
Após o almoço fomos espreitar o que restava do Templo do Sol, sobre o qual tinha sido construído o mosteiro de São Domingos. De fora via-se apenas um relvado com umas quantas pedras perdidas pelo meio, pelo que resolvemos entrar. Mas apesar da vontade de contratar um guia conclui que mais nenhum dos meus intrépidos companheiros de viagem tinha paciência, e seguimos para a visita self service. Logo após a bilheteira somos recebidos por dois portões de madeira trabalhados, fazendo lembrar a Alhambra, passando os quais nos encontrávamos no claustro do mosteiro. À primeira vista parecia apenas um claustro bonito, com pinturas nas paredes e brasões no tecto, uma fonte no centro. Só num segundo take é que nos apercebemos das construções en pedra negra, trapezoidais, em ambas as extremidades do claustro. De cada lado 3 antigas "capelas" incas, de construção perfeita, com as pedras perfeitamente encaixadas entre si. Durante anos usadas como arrecadações pelos monges. Do Templo do Sol original resta também uma extremidade da muro, uma parede imponente curva, outra vez perfeitamente alinhada. Visitamos também o segundo piso do mosteiro, onde se encontra o coro alto. Tal como muitos outros edifícios, o mosteiro foi destruído em grande parte no terremoto de 1950 (excepto, outra vez, as partes incas), e foi reconstruído, o que explica a o aspecto modernaço das pinturas que ladeiam os lugares do coro, incluindo um sacerdote ligado a um saco de soro fisiológico e uma  Nossa Senhora estranhamente parecida com a Scarlett Johannsen...
Daí partimos para o nosso quartel general, a Valeriana, onde finalmente ataquei os cupcakes. Desilusão. Mais bonitos do que saborosos... Aí ficou a intrépida companheira de viagem, a descansar o joelho, enquanto os restantes três encararam a subida até San Blás, para tentar resolver umas dúvidas de última hora na Amazon Trails.
Infelizmente não foi desta que conhecemos a Ulle, com quem andei a trocar mails nos últimos seis meses. Mas fui rapidamente reconhecida pela senhora que lá estava. Lá pusemos as nossas dúvidas, maioria sobre a dificuldade e a quantidade de peso das mochilas e do porter extra que contratamos. Soubemos então que o grupo seria constituído apenas por nós os quatro, e uma entourage de 10 pessoas: guia, cozinheiro e 8 porteros (2 por pessoa). Auch. Aproveitamos também para tentar organizar a ida ao Vale Sagrado, mas o máximo que nos podiam oferecer era o número de telefone de um senhor taxista conhecido que nos poderia fazer um tour privado. Ficou logo combinado encontro no hotel no dia seguinte às 8h.
Depois de esclarecermos algumas das nossas dúvidas, resolvemos voltar pelo hotel pela rota mais longa, tentando descobrir o que eram as duas torres que andavam a intrigar o quarto elemento desde o primeiro dia em Cusco. Descobrimos que se tratavam das torres da Igreja de São Francisco, ao lado do Instituto de Ciência que deu nome à equipa de futebol local, los Ciencitos. Ao final da praça vimos um pórtico que dava passagem para o zona não turística da cidade. Seguimos por aí, e entramos no Cusco dos locais. Ruas cheias de gente, inúmeras lojas de tudo e mais alguma coisa (incluindo lojas de tecidos que vendiam os tecidos classicanente peruanos utilizados para amarrar cargas e crianças às costas e fazer todo o tipo de artefacto para turistas). Sem querer fomos parar ao Mercado de San Pedro, já na hora de encerrar mas ainda com muitas bancas interessantes. Decidimos voltar mais tarde com a intrépida companheira de viagem, que iria certamente adorar o local. Seguindo pela rua abaixo do mercado, fomos ter directamente ao hotel. Ao que parece passámos a tarde na zona não aconselhável, de acordo com o recepcionista do hotel (segundo ele não devíamos ir mais além do que o hotel naquela direção, porque não havia nada de interessante e era perigoso...).
Depois de um breve descanso no hotel, saímos para jantar num restaurante que tinha despertado a curiosidade, chamado Beerhouse. Cervejas de todo o mundo, e eu e a cara metade nos enchemos de coragem e provamos cuy, um prato muito tradicional desta área mas que é na realidade porquinho da índia. Pedimos a versão mais soft, em que o bicho não vem inteiro, com cabeça e tudo. A carne até era saborosa, mas para mim ficou arrumado. Demasiadas lembranças de animais de estimação...

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