quinta-feira, 16 de junho de 2016

Monkey business (14/06/16)

Por vezes parece-me que quanto mais cansada estou, menos durmo. Às três e meia da manhã estava acordada, despertissima, a ouvir a sinfonia dos insectos. O frio também não ajudou. Estes lodges claramente não tiveram em conta os ventos da Patagônia que trouxeram frio para esta região nos últimos dias... Fiquei na cama, a ouvir o galo, e a tentar arranjar coragem para ir ao wc. Vendo que a vontade não passava, liguei a minha lanterna frontal e depois de inspeccionar toda a rede mosquiteira, o chão, o interior das botas, todos os recantos do wc, na ausência de "hóspedes" extra lá fui eu. Prova superada. Começo a acreditar que vou conseguir sobreviver um dia às minhas férias de sonho de 1 mês na selva.
Às seis da manhã encontramo-nos com Miguel, o guia, no jardim, para um pequeno passeio. Vimos algumas plantas locais, e a famosa planta da coca. Ao que parece o clima do vale de Kosnipata, próximo da Reserva de Manu, tem o clima ideal para a plantação de coca, e a maioria das famílias produz e seca as folhas. Mas desde há alguns anos são obrigados a vender somente ao governo, que depois revende para os chás, rebuçados, folhas secas, etc, para não dar hipótese de tráfico. Se funciona ou não, não sei. Mas estou desiludida. Quando comprei o saquinho de folhas de coca à senhora velhota no mercado imaginei que ela ou o marido tinham colhido e secado amorosamente as folhas, e não comprado num armazém governamental.
Depois pequeno almoço fabuloso, cortesia do chef Luís, com direito às melhores panquecas que comi em muito tempo.
Tendo em conta que poderíamos não ver muitos animais na selva, resolvemos jogar pelo seguro e começar o dia visita do um centro de recuperação de animais selvagens, gerido por um casal local simpático. Pelo que percebi não me parece que muitos animais voltem para a selva, visto que são tratados um pouco como animais de estimação. Mas como resistir? O primeiro animal que vimos foi uma preguiça, com o andar mais pateta e fofo de sempre, e que se sentindo intimidado pela nossa presença amarinhou pela senhora cuidadora acima. Depois um casal de araras gigantes, que também não pareciam com grande vontade de sair dali. Seguimos então para uma zona de pasto, para ver o tapir e a capivara, passando pelos macacos à solta. Foi então que veio um macaco a correr na nossa direção, e resolveu amarinhar por mim acima e plantar-se sentado na minha cabeça. Fiquei parada, sem saber bem o que fazer. O guia disse-me para ficar quieta, e foi o que eu fiz. Senti o macaquinho firmemente agarrado ao meu cabelo, e quando o tentei enxotar começou a agarrar os meu óculos de sol e as minhas orelhas. Ligeiro momento de pânico, enquanto o resto do grupo se ria. Ao que parece o macaco estava a comer uma fruta e a coçar-se sentado em cima de mim. Quando estava a começar a panicar à séria o bicho lá se resolveu a ir embora. Not funny, apesar das gargalhadas da malta. Fomos então finalmente ver o tapir, um mamífero enorme mas vegetariano e fofinho. Que me mordeu na perna. O guia já só ria, dizendo que o Selva (nome do tapir) estava ali desde pequenino e nunca tinha atacado ninguém. Comecei a temer pela minha aventura na selva, quando até animais fofinhos me atacam...
Seguimos caminho pela estrada de terra batida/pedra de rio, no meio da vegetação, passando pelo pequeno povoado de Pátria, onde pudemos ver as folhas de coca a secar sobre plásticos na rua. Paragem seguinte, Pilcopata, um povoado um pouco maior, para comprar víveres. Rua de terra batida, casas de madeira, propaganda política em todas as paredes. Aproveitamos para ver a feira comemorativa do aniversário do município de Kosnipata. Muita banana, mandioca e ananás, algum artesanato, gente local entretida.
Num gesto desesperado, tentamos resolver o problema do e-reader da intrépida companheira de viagem (que tinha sido reiniciado sem querer no dia anterior, e precisava de ser ligado à internet para sacar os livros). Acedemos à internet no "locutório" local. Ao fim de 10 minutos simplesmente para abrir a página do gmail chegamos à conclusão que ela vai ter mesmo que conviver e conversar conosco, porque não ia haver livros para ninguém...
Seguimos pela estrada da selva, cruzando o rio Pilcopata, em direção a Atalaya, nas margens do rio Madre de Dios. Atalaya parece exactamente como as cidades da selva nos filmes: poeirenta, gente amistosa mas pouco faladora, casas de madeira, e um porto com botes para navegar o rio.
Passámos então à parte aquática da aventura: bote, na realidade uma barcaça, rio acima. Nesta altura do ano o caudal do rio é pequeno, tornando a navegação mais complicada, com alguns "rápidos". Mas mesmo assim a meia hora de caminho até ao albergue foi pacífica, vendo as montanhas recobertas de verde de ambos os lados, pássaros cruzando o caminho, e as praias de seixo que desaparecem quando vêm as chuvas e o nível da água sobe 3 metros em relação ao que vemos agora.
O nosso albergue era literalmente no meio do nada. Única forma de chegar ou sair era de barco. Propriedade de uma família local, quase não se vêem, estando ocupados com as suas vidas. Vários edifícios de madeira, uma cozinha ao ar livre, uma gaiola de rede mosquiteira que era a zona comum/zona de refeições, e um bangalô com 3 quartos, redes mosquiteiras a servir de metade superior das paredes. Sem electricidade, mas com água quente. Para além de nós estava lá apenas outro casal, com o seu guia e cozinheiro, sem grandes vontades de comunicar.
O tempo de arrumar a tralha foi o tempo de tratarem do almoço. Mais um refeição copiosa, chef Luís no seu melhor. Enquanto esperávamos que o calor abrandasse, fomos para a beira rio ver pássaros e conversar com o guia. Natural da Bolívia, já tinha trabalhado em vários parques da Bolívia, Peru, Brasil e Yellowstone. Vida engraçada. Falou-nos também da existência de tribos indígenas na reserva de Manu que não tem contacto com a civilização moderna. Por andarem nús são conhecidos pela população local como "calçados" (que pelo o que eu percebi significa pelado). No último ano em viagens mais prolongadas na reserva, em que avançam mais para o interior da selva, viu-os por duas vezes. Não é permitido estabelecer contacto, e é mesmo perigoso, tendo havido pessoas mortas por entrarem no seu território. A intrépida companheira de viagem começou a não gostar muito da conversa. Já não bastavam os jaguares e todos os outros bichos, as galochas para evitar picadas de serpentes, ainda corria o risco de ser trespassada por uma seta.
Por volta das três e meia partimos para o primeiro passeio na selva. Armados de galochas e lanternas, seguimos por um trilho que partia do albergue. Como estava à espera, muita flora e pouca fauna. O Miguel foi nos mostrando os diferentes tipos de árvores (incluindo uma palmeira pornográfica com raízes em forma de órgão genital masculino), mas animais vimos vários tipos de formigas (incluindo toda uma autoestrada construída por formigas cortadoras e o seu formigueiro gigante), poucas aves, e uma borboleta-mocho. A volta foi feita na escuridão, apenas com a luz das lanternas, e com algum medo dos barulhos estranhos da natureza.
Voltamos mesmo a tempo do jantar, seguido de ida para a cama à luz de velas. Desta vez já sem grandes medos de insectos, e manobrando o mosquiteiro sem dificuldade.

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