Mais um despertar demasiado matutino. Mas como uma máquina bem oleada, estávamos prontos (quase) na hora certa. A van que nos levaria na viagem de quatro horas até ao Canyon de Colca parecia confortável, e foi colecionando viajantes aventureiros pela cidade fora. Adormeci quase imediatamente, para acordar gelada passadas duas horas. Na janela a condensação virava gelo. Comecei a pensar que este plano poderia correr mal, visto que íamos dormir num "home stay" no fundo do canyon, e que nos tinham dito que não era preciso levar saco cama. Sugestão que aceitamos rapidamente, porque tudo o que levarmos tem de ser carregado por nós, portanto a mochila foi feita em versão survivor. Mas com tanto frio no caminho comecei a vacilar... A vantagem de acordar cedo foi ver o nascer do sol nas montanhas, e ver aparecer o canyon. Com um pouquinho de sol deu para aquecer o suficiente para dormir até à parada para o pequeno almoço. Foi aí que nos apercebemos que estávamos num tour vip. Enquanto os restantes aventureiros receberam pão, manteiga e marmelada para o pequeno- almoço, nos tivemos direito a fruta, iogurte, huevos revueltos. O que deu direito a uns olhares invejosos de umas senhoras pouca educadas sentadas na nossa mesa, que por sua vez levou a comentários pouco agradáveis entre nós. À saída uma das antipáticas veio falar comigo. Em português... Ops. Um português mal amanhado, só para perguntar se éramos portugueses ou brasileiros, mas deu para passar uma vergonhazinha.
Como em Roma faz como os romanos, acompanhamos o destino com matte de coca. Não sei se ajuda com o mal de altitude, mas nem que seja pelo efeito placebo dá a certa energia. Até agora os intrépidos viajantes estavam a lidar bem com a altitude. Uma ou outra cefaleia em Arequipa, algum cansaço extra, mas nada que não tivesse resolvido com dois dias calmos.
Reconfortados com a barriga cheia, seguimos para Cruz del Condor, para ver o famoso vôo dos condores. O local é fabuloso, na margem de uma das zonas mais profundas do canyon, com o rio no fundo. Mas o que se vê são 3 ou 4 passarinhos à distância, durante breves instantes. Para mim entra na categoria de banhada turística, ao nível do relógio da praça principal de Praga. Se eu tivesse acordado às três da manhã só para tentar ver os condores ficaria muito chateada...
Seguimos então para Cabanaconde, ponto de partida do trekking. Vilarejo perdido na beira do Canyon, repleto de ruínas de casas de pedra, com outras (pouco) mais modernas ao lado. Mais um momento auspicioso da viagem: o nosso grupo, que poderia ser de 6 pessoas, era na realidade constituído apenas por nós os quatro. Assim não precisávamos de ter vergonha de parar e pedir arrego.
Saímos então com o nosso guia, Hans (não sei de onde veio o nome, ele era arequipeno de várias gerações), fomos ao restaurante/hospedagem onde iriam ficar os mochilões, descansamos uns minutinhos na rede que havia no jardim e, totalmente recobertos de protector solar e repelente de insectos, começamos a nossa aventura.
A primeira etapa foi simples, quase plana, do vilarejo até ao limite do canyon. Penso que serviu para o Hans ter noção da nossa condição física (até aí impressionante). Parecíamos uns verdadeiros cromos, equipados até aos dentes, autênticos caminheiros. Quase não se percebia que éramos marinheiros de primeira viagem para caminhadas deste nível de dificuldade...
Mesmo no início da descida paramos para ver as vistas e receber uma explicação de como seria o caminho. Primeiro 3 h para descer 6km, e baixar 1100m de altitude até ao fundo do canyon. Como recompensa, almoço e uma hora de descanso no oásis (pequeno complexo turístico muito rústico, com piscina, "restaurante" e uns quartinhos básicos). Depois subir uma hora (medo), 20 min no plano, descer mais hora e meia, subir 15 min do demo (descrição do guia), e descer mais uma hora até San Juan de Chuccho, o pequeno aglomerado de casas onde íamos jantar e passar a noite, num total de 13km. No segundo dia, acordar às 04h, sair às 04:30 à luz das lanternas para fazer metade das 4 horas da subida ainda no escuro, e terminar os 6km por volta das 08:00. Muito muito medo.
Um tanto apreensivos acerca da viabilidade deste trekking por 4 trintões assim-assim em forma, lá começamos. E surpreendentemente, a descida foi muito menos difícil do que esperávamos. Algumas partes com degraus toscos, outras em plano inclinado, zigzagueando pela encosta abaixo. Pouco após o início avistamos lá em baixo, ao fundo, longuíssimo, o quadrado azul da piscina do oásis. Cenoura à frente do burro.
Devido à atenção requerida pelo caminho, os olhos foram postos no chão a maior parte do tempo. Mas cada parada para respirar era brindada com uma vista fabulosa nova. Paredes escarpadas de pedra, um condor a sobrevoar-nos, o fundo do canyon com o rio Colca lá em baixo. E o oásis, que como lhe competia, parecia cada vez mais perto mas nunca atingível. O ritmo da descida foi bom, com várias pausas para tirar pedras de dentro das botas (filhas da mãe). E em pouco mais de duas horas, bufando e morrendo de calor, chegamos finalmente ao oásis. Entrar na piscina foi como renascer. Depois meia hora de conversa à beira da água, almoço simples mas saboroso (sopa de quinoa e lomo de alpaca salteado, um pouco duro mas bom), e uma merecida mini-sesta.
Assim que recuperados, reiniciamos o caminho. Desta vez não tão fácil, o cansaço já se fazia sentir.l, e uns quantos joelhos já reclamavam. Ao fim de poucos minutos, o momento Indiana Jones: uma ponte suspensa para atravessar o rio. Uma boa desculpa para para uns minutinhos para as fotos e apreciar a vista. Depois,a primeira subida. The pain, the pain. Sob o sol do início da tarde, mais um zigzag, desta vez escarpa acima. Pouca conversa, algumas pausas, ninguém quis saber das vistas. Finalmente lá em cima, a recompensa de uma barraquinha a vender água fresca e bananas (que nunca me souberam tão bem). Seguimos então pela única parte plana do caminho, ao longo de terraços agrícolas abandonados (como em toda a zona montanhosa, a solução foi a mesma, plantar em socalcos). Quando iniciamos a segunda descida, a paisagem. Mudou de repente. Foi como se fizéssemos uma curva para trás do sol. De árida e castanha passou a verde. Até a diferença na temperatura se fez sentir. Serpenteando por um caminho menos difícil mas mais assustador (caminho estretinho com ribanceira do lado de fora), lá fomos caminhando, parando de tempos a tempos para ouvir explicações sobre as gentes e as plantas locais. A determinada altura entramos na zona das plantações, aqui em terraços menos escavados, com água a correr sempre ao nosso lado (e por vezes sob os nossos pés, para irritação da minha intrépida companheira de viagem, ainda com stress pós traumático de uma caminhada nas Filipinas nos campos de arroz, em que a combinação de lama, caminho estreito, precipício e calçado inadequado a fizeram temer pela vida). Quando estávamos a começar a achar que esta parte do caminho era tranquila, chegamos a um leito de um rio seco, onde tivemos que trepar pelas pedras para descer. E finalmente a tal subida do demo, 15 min a subir uma parede de pedras quase vertical. No fim, mais uma cebourinha: estávamos quase a chegar ao local da dormida. Mas rapidamente nos apercebemos que os 15 min do Hans por vezes eram 15 min de cirurgião: 45 min a uma hora. Com a noite a chegar, lá apertamos o passo. Caminhando no lusco fusco, passamos por umas primeiras casas (ainda não era aí), depois outras (também não era aí, mas tinham uma criação de cuy -porquinho da índia- que nos fez temer que esse fosse o jantar, já que é uma especialidade da zona), e depois de acabar a zona com electricidade e já ser quase noite cerrada, lá chegamos ao nosso porto de abrigo. Para nossa surpresa, aquilo que esperávamos que fossem umas cabaninhas eram na realidade uns quartos novos e simpáticos, de tijolo, com janelas, caminhas com ar confortável e até tolhas. Embora sem electricidadd. Porque sim, nós somos viajantes aventureiros, mas que se dão a algum conforto. Depois da primeira surpresa agradável, as palavras mais desejadas: "tienes água caliente". Para quem tinha pensado pular o banho de água fria essas palavras foram um bálsamo para a alma. Mas infelizmente eram mentira. Havia uma torneira de água fria, e outra de água ligeiramente menos fria. No entanto, já no mind frame de tentar lavar os kilos de pó, respiro fundo e encarei o banho quase gelado. Depois, de lanterna na testa, juntamo-nos ao Hans e aos ocupantes dos outros quartos para jantar na sala comum, à luz de velas. Sopinha quentinha, uma espécie de picadinho de alpaca com arroz e omelete de vegetais deliciosos e por fim banana com mel (que eu por norma não gosto, mas que me soube a comida dos deuses). Para embalar, um matte de coca. Vamos sair daqui agarrados.
Com a energia resposta e o sono a aparecer, ajudado pelo cansaço do dia, fomos dormir. Apesar de tudo isto, fomos obrigados a parar no caminho para os quartos para apreciar a beleza da noite. Não me lembrava que o céu podia ter tantas estrelas. Damn you, poluição luminosa.
E antes das nove da noute, na caminha a dormir, porque o despertar amanhã é às 03:40.
sexta-feira, 3 de junho de 2016
One trekked by the condor's nest (02/06/16)
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