quinta-feira, 16 de junho de 2016

Hidden jaguar, crouching tourist (15/06/16)

Nem parece que estamos de férias. Despertar às cinco para sair às cinco e meia, saltar para o bote e seguir meia hora rio acima para ver o famoso ajuntamento de papagaios buscando minerais no "clay lick" logo pela manhã. Durante o trajecto o sol começou a espreitar pela margem sul do rio, e víamos a neblina a levantar ao longe. Paz total.
Chegamos então ao ponto de observação dos papagaios. Para não os incomodar ficamos a cerca de 60m, numa praia de seixos, sentados numa almofadinha. Ver pássaros requer paciência... Passado pouco tempo vimos os primeiros casais a chegar, vindos da margem sul do rio. Verdinhos, com a cabeça azul, e um chilrear animado. Foram chegando cada vez mais, e voando em conjunto de uma árvore para outra. Segundo o guia, esperam estar em número suficiente antes de começar a comer o barro, porque nesse momento ficam vulneráveis. E de repente, uns 40 papagaios voaram para o mesmo espaço, recobrindo a encosta de verde e azul. E tão repentinamente como baixaram, subiram. Não durou nem cinco minutos. Ao que parece, a necessidade de minerais varia com a dieta. Ainda esperamos um pouco, mas chegamos rapidamente à conclusão que eles já tinham terminado o pequeno almoço e que era hora de tomarmos o nosso.
Por volta das 8h (a manhã rendia muito na selva), fomos de bote até ao outro lado do rio, para uma caminhada até a uma laguna, onde em tempos passou o rio Madre de Dios. Primeiro caminhamos pela praia de seixos, depois pela primeira linha à beira rio, uma floresta de canas altíssimas. Chegamos então a uma plantação de mandioca perdida no meio da selva e seguimos finalmente pelo meio da vegetação verde e frondosa. Mais uma vez, na parte inicial mais fauna do que flora. De repente ouvimos um ruído estranho, como um animal a bufar, e barulho de algo grande e remexer as folhas. Devagarinho, sem fazer barulho, fomos nos aproximando da vegetação. E vimos, do outro lado de um pequeno curso de água que acompanhava o caminho, uma aves enormes, cerca de um metro de altura, com a face azul e penachos amarelos na cabeça, a bufarem e a saltitar de ramo em ramo. Segundo a descrição do Miguel tinham o nome de hoatzin, e eram das aves mais antigas da região, quase pré-históricas. E com um aspecto um tanto ou quanto cómico.
Continuamos caminho, e chegamos a uma zona enlameada, cheia de pegadas de animais. Logo identificadas a pegada do jaguar e de um tapir, aparentemente com cerca de um dia. Sempre soube que não seria provável ver animais de grande porte nesta viagem, mas foi emocionante saber que pelo menos eles andam por ali. Logo chegamos à tal laguna, que embora selvagem é "explorada" pela municipalidade, que em troca de uma módica quantia cede umas jangadas em balsa. Imediatamente vimos mais hoatzins, que pelos vistos não são nada tímidos, sendo que o único sinal de desagrado pela nossa presença era o bufar constante. À volta do lagauna vimos garças, íbis, come-moscas, e uma ave cujo nome não me recordo, mas que devido ao seu zurrar ficou conhecida como ave- burro. A meio do trajecto estacionamos a balsa e seguimos a pé outra vez pelo meio da floresta. Passado alguns minutos sentimos movimento na copa das árvores, e a cara metade com muita paciência conseguiu encontrar o culpado, um macaco andarilho. Em modo stealth e com os binóculos fomos seguindo o bicho, e acabamos por encontrar vários outros. Passámos vinte minutos agradáveis a vê-los pular de árvore em árvore e a comer bagas e folhas. Muito fofinho.
Regressamos depois à laguna, sob o sol do meio dia, e com o efeito do repelente claramente a acabar. Todo o trajecto de volta foi feito em passo acelerado, com os pés a suar nas galochas, sem grande interesse pela fauna e flora. Quando chegamos à orla do rio, momento de inveja descomunal: outro grupo nadando alegremente no rio. E nós que não tínhamos trazido fatos de banho por sugestão do guia. Bummer...
Almoço caprichado seguido de banho quente e mini-sesta. Depois mais umas rodadas de Backpacker até às quatro e meia, hora em que saímos para novo passeio. Desta vez saímos por outro caminho, em direção ao rio, chegando a uma praia de seixos. Estivemos aí divertidos meia hora a tirar fotos e a chapinhar de galochas na água, e depois seguimos por uma lingueta do rio agora quase seca, formando pequenos charcos, mas que na época nas chuvas se transforma quase em ria.
Começamos a caminhar próximos dos charcos,e outra vez, na lama, múltiplas pegadas de animais. Um jaguar e a sua cria, um tapir também com um pequenino, capivaras e outros pequenos mamíferos. E como se não bastasse esse zoológico todo a menos de 20 min a pé do albergue, umas pegadas descalças que assustaram a intrépida companheira de viagem mais do que qualquer outro animal. Mas rapidamente nos apercebemos de outras pegadas de botas ao lado, sinal de que provavelmente pertenciam aos pilotos dos botes, que devem ter passeado por ali.
À medida que nos acabávamos no caminho o sol ia desaparecendo, dando lugar a uma noite sem nuvens, e a um coro quase ensurdecedor de sapos e rãs. Com a ajuda das lanternas procuramos o reflexo de olhos, mas tudo o que conseguimos encontrar foram muitas aranhas nos seixos (para desagrado da cara metade, quando se apontava a lanterna para o chão parecia haver um enxame de pirilampos) e uns quantos sapos. Saímos dali já noite cerrada, com um ligeiro desconforto, não fosse um dos transeuntes nocturnos aparecer por ali.
Esperava-nos no albergue um belíssimo jantar de truta panada na perfeição, ceviche de cogumelos e lentilhas. Nunca comi tão bem numas férias.
Para encerrar a última noite na selva, um último joguinho de cartas, que terminou comigo a ressonar em cima da folha das pontuações... 

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