Às oito da manhã estávamos prontinhos, à porta do hotel, esperando pelo senhor Hermógenes (doravante referido como Sr H para poupar trabalho). Por sugestão dele iríamos fazer o circuito do Vale Sagrado ao contrário, começando pelas salinas em Maras e terminando em Pisac.
Saída de Cusco um pouco complicada por causa do trânsito, mas ao fim de meia hora já estávamos na estrada alcatroada. Que não durou muito tempo. Trinta minutos depois viramos para uma estrada de terra batida, num terreno ermo, árido, poeirento, sem grandes sinais de civilização, só com searas à volta, e volta e meia uma casa de adobe. Encontramos poucos carros no caminho, mas muitos rebanhos de ovelhas.
As salinas não parecem muito impressionantes quando descritas, mas a visão de toda a encosta de uma montanha recortada em pequenos rectângulos, com vários tons entre o branco e o castanho, são muito bonitas. Usadas há centenas de anos, o sal provém de uma nascente salgada que vem das montanhas.
O Sr H tinha razão, quando chegamos havia apenas mais um grupo de turistas. Estivemos meia hora a passear pelos caminhos, a provar a água (e a rezar para não apanhar nenhuma bicheza, mas penso que a água é demasiado salgada para que cresça aí alguma coisa), e quando o sol começou a apertar seguimos para a paragem seguinte, Moray. Um laboratório agrícola inca, o local consiste em três círculos com terraços a alturas diferentes, onde experimentavam diversos tipos de cultura, com diferentes graus de humidade, sol e vento. Infelizmente hoje em dia não há plantações, e vemos apenas relva. Demos uma volta, e seguimos para Ollantaytambo.
A viagem levou uma hora e pouco, inicialmente por estradas de terra batida nas montanhas, até descer próximo do rio Urubamba, onde se transforma numa estrada em condições, asfaltadas e com duas vias. Fiz metade da viagem a dormir...
Quando chegamos a Ollantaytambo, o Sr H ofereceu-se para nos levar a um restaurante onde costumava almoçar. Deu a entender que era um tasco típico. Quando lá chegamos era na realidade um restaurante tipo buffet para grupos turísticos. Enfim, ainda chegamos antes das hordes turísticas, o menu do dia até era baratinho, e a sopa de quinoa uma delícia.
Quando saímos do restaurante, má surpresa: o carro tinha um pneu em baixo. Deixamos o Sr H a resolver o problema e seguimos para as ruínas. Estas ocupam toda uma encosta, a norte do pueblo. Resolvemos aceitar a oferta de um guia local para uma visita guiada, embora a um preço pouco convidativo: 20 soles por pessoa. Ainda tentamos regatear, mas não foi possível.
Segundo o guia Ollantaytambo parece ter sido inicialmente um local administrativo e de trocas comerciais, num ponto estratégico na união de três vales. Numa fase posterior, após a chegada dos espanhóis, foi transformado em fortaleza.
Para as nossas perninhas cansadas e joelhos manhosos a subida inicial dos terraços foi dura. Estes não eram para cultivo, mas sim para plantação de flores e ervas medicinais. Deve ter sido bonito. Lá em cima, uns pedregulhos enormes parecem ter feito parte de um templo, uns dizem do Sol, outros que pela sua localização deveria ser dedicado ao Cruzeiro do Sul, constelação muito importantes para os incas. Não sei, só que as pedras eram gigantes, com quase 3 metros de altura, encaixavam na perfeição, e na parede era possível apreciar vários mecanismos anti-sismo. O guia era particularmente apaixonado pela construção dos incas, e falou demoradamente sobre os vários tipos de união entre as pedras, e como forma esculpidas, e trazidas até ao cume do monte, e polidas, e etc etc etc. A determinada altura já estava só a apreciar a paisagem, que a construção é realmente incrível mas vamos lá ter calma... Daí descemos pelo outro lado dos terraços, até às fontes de purificação para os visitantes se lavarem antes de entrar no complexo administrativo/religioso. Uma bonita e trabalhada para os VIPs, um fio de água a sair das pedras para os restantes.
Muito mais informados sobre as diversas técnicas pedreiras dos incas, reencontramos o Sr H, de pneu trocado e carro limpo (até deu dó entrar cobertos de pó), e seguimos para Pisac, para ver as ruínas e o mercado. Da viagem até lá não posso fazer comentários, dormir o caminho inteirinho...
As ruinas, ao contrário do que eu pensava, são um complexo enorme ocupando toda uma montanha, com terraços agrícolas terminando no precipício. Infelizmente chegamos muito próximo da hora de fechar, e não tivemos tempo para muito. Fica a vontade de descobrir mais quando tiver net. Daí partimos para o mercado, que também já estava a fechar. Tentei desesperadamente encontrar as barracas das pedras e minerais, para levar um presente prometido. O problema foi, apesar da breve demonstração que me fizeram para reconhecer as pedras que procurava, no meio de várias pedras de tom azul ficava difícil perceber quais eram as celestinas... Procurei um senhor com aspecto honesto, que apontou para aquelas que me pareciam corresponder à descrição. No lusco fusco, à luz do telemóvel, consegui encontrar duas pedras bonitas. Espero não me ter enganado...
Para além das pedras e minerais o mercado vendia todo o tipo de artefacto turístico possível e imaginário. Mas cansados e sem luz, não tivemos grande paciência para procurar nada. No final ainda comemos um milho cozido com queijo (quase o sabor do milho quente da minha infância), e vimos um kaclla a passear pela rua.
Cansados, fizemos o caminho de volta, combinando com o Sr H novo tour no dia seguinte, para visitar as ruínas mais próximas de Cusco. Deixamos o quarto elemento na Valeriana, para jantar com uma colega de Lisboa que por acaso também estava em Cusco, e fomos ao hotel descansar uns instantes, para logo sair e tentar comprar aquilo que nos fazia falta para o Caminho Inca.
Reencontramo-nos para jantar, e acabamos num local turístico mas que agradava a todos, com pratos locais e pizza. E um empregado brasileiro, demasiado entusiasmado, que parecia consumir muito matte de coca. Para nossa infelicidade, encontramos finalmente a banda inca tocando grandes hits dos anos noventa em pan pipe. Que foi substituída por um dançarino tradicional que pulou ferozmente durante 20 minutos. Não piorou a digestão, mas tornou difícil a conversa.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Valley of the gods (07/06/16)
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