Quinto dia de viagem começou tranquilo, com mais um pequeno almoço farto. Estamos a ficar muito mal habituados. E com as calças apertadas.
Aproveitando mais um dia de sol, decidimos fazer um walking tour pela cidade, tentando descobrir aqueles pormenores que só os locals sabem. A nossa guia, Carol, era muito simpática e animada, mas falava um spanglish sofrível. Penso que só quem compreendia ambas as línguas é que se aguentou no tour, com várias baixas logo no início. Começamos na Plaza de Armas, e logo seguimos para a Iglesia de San Francisco, uma igreja jesuita construída no séc XVI. Aí o tour começou a valer a pena: mostrou-nos uma série de pormenores da fachada que demonstravam a influência das gentes locais. A fachada, embora muito trabalhada, apresentava motivos naturais e importantes para os indigenas, nomeadamente a serpente, o jaguar e o condor. Lá dentro, uma versão ariquipena da Ultima Ceia, com Jesus e os discípulos sentados numa mesa redonda, com frutas locais em cima da mesa e um macaco nas costas de um dos apóstolos. Mesmo ao lado, o pátio do colégio jesuita, também impressionante pelas suas colunas trabalhadas com motivos locais, pela vista fabulosa do terraço (Chachany de um lado e El Misti do outro), e pelo facto de albergar uma escola de dança do varão.
Daí seguimos até ao mercado municipal, Mercado de San Camilo, numa visita demasiado protegida que soube a pouco. Sendo um local pouco turístico a guia andou conosco em filinha, um pouco a correr, e a dar constantes indicações sobre as maquinas fotográficas e mochilas. Ao que parece, aí se vende de tudo. Carne, fruta, pão, roupa, remedios, brinquedos, e altares para Pachamama (a entidade divina que representa a terra) com uma série de oferendas, incluindo fetos de llama (infelizmente não consegui passar por esse corredor, tive que acreditar nas palavras da guia). Daí seguimos pela rua dos instrumentos musicais até a uma rua pequenina, que se entrava através de um portão engradado até ao Tambo, uma espécie de habitação social. Uma série de pequenos apartamentos com apenas uma divisão, sem janelas, mas que a Municipalidad aluga a preços irrisórios (menos de 100soles por mês), e que embora sem grandes condições estão mesmo ao lado do centro. Foi o momento "esta tour não vos mostra só as coisas bonitas, mas também a realidade". A cinco minutos do Tambo fomos ver uma igreja (já não me lembro de que santo), cuja fachada tinha a particularidade de ter sillar branco e rosa. E aprender que o nome correcto da pedra não é sillar, esse é simplesmente o nome de um bloco de pedra, mas o nome correcto era demasiado complicado para me recordar dele, portanto fica sillar. Última paragem: o terraço do Dejá Vu, discoteca de noite, restaurante durante o dia, em que o nosso grupo ganhou um pisco sour de borla por responder correctamente a uma pergunta da guia. Apesar da tentativa forçada de impingir o restaurante, o lugar era bastante agradável, com sol e uma vista bonita sobre a cidade, e a fome mais que muita, pelo que resolvemos acatar a sugestão. O que foi muito bem jogado. Ceviche de pescado e marisco, tiraditos con ají amarillo e langostines con salsa brava. Tudo bem apresentado, colorido e delicioso.
Depois de uns momentos de jiboianço, aproveitando a barriga cheia e o calorzinho, fomos conhecer o ex libris de Arequipa, o Monasterio de Santa Catalina. Um verdadeiro compound, ocupando todo um quarteirão do centro da cidade. Com pouca paciência para ler a parca informação escrita, optámos pela visita guiada (que aqui não são programadas, os guias trabalham independentemente dentro dos museus e edifícios históricos). A nossa guia, Cláudia, era uma fofinha. Pequenina, com cara de abuelita, e uma voz melodiosa, de menina pequenina, com o espanhol cantado típico daqui. Mas com um sentido de humor aguçado. A visita foi fenomenal. Explicou-nos o funcionamento do mosteiro nos seus tempos de glória, como funcionava o noviciado, pintou um retrato perfeito da vida de uma freira de clausura nos antigamentes e agora (ainda há 15 freiras a habitarem no convento). E o local era simplesmente incrível, uma pequena vila de ruas pintadas de azul e ocre, ladeadas de gerânios, com árvores e fontes pelo meio. As freiras que ingressavam neste convento eram filhas de boas famílias, e levavam uma vida condizente. Apesar da clausura podiam ter empregadas, e viviam em apartamentos T2 com cozinha e pátio com mobiliário digno de palacete. Tirando a proibição quase total de contacto com o exterior não parecia uma má vida... Até à reforma, no século XIX em que o Papa (não sei qual) determinou que as freiras deviam viver de forma comunitária e ser auto-suficientes. Bye bye apartamento e emoregada, hello dormitórios e turnos a cozinhar, lavar as roupa e tratar dos animais. Numa total coincidência, o mosteiro entrou em declínio no final do século XIX.
Mesmo depois do final da visita guiada continuamos a explorar o local tempo suficiente para termos apetite para um lanchinho no café do mosteiro, num jardim muito agradável. Eu deliciei-me com um alfajor, doce conventual que consiste em empilhar bolachinha de manteiga com dulche de leche a servir de argamassa, enquanto os outros provaram o famoso queso helado, uma espécie de gelado de queijo, também muito bom, e uma tarte de lima verdadeiramente divinal.
Já esgotado o crédito cultural do dia, fomos ultimar os preparativos para a ida ao Canyon, como alugar os bastões e comprar chapéus. Uma pequena pausa no quarto para deixar a tralha transformou-se numa grande pausa, e saímos ao fim da tarde a correr para comprar snacks e jantar (um bife agradável num restaurante simpático mas que não merece mais atenção do que esta). E às 21:30 já estávamos a dormir a pressa, que o transporte para Chivay nos ia buscar às 03h da manhã...
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Arequipa, part II (01/06/16)
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