Apesar de toda preparação para o frio (saco cama cromo, thermal mat, "garrafa de água quente", roupa térmica), ainda consegui acordar com frio duas ou três vezes durante a noite. Mas o cansaço era tanto que simplesmente me virei para o lado e adormeci outra vez. Despertar às cinco e meia, com o matte de coca, banho de toalhetes, pequeno almoço reforçado e vamos embora. A chuva miudinha/orvalho que caiu durante a noite mantinha-se, portanto decidi utilizar o equipamento impermeável, já que o tinha carregado.
O terceiro dia é o mais longo, mas também o mais variado. Ainda a digerir o chocolate quente começamos a subir em direção a Runkurakay, também conhecido como o segundo paso (segundo ponto mais alto). Eu pensava que as subidas já tinham acabado... O verdadeiro caminho inca é tramado: degraus de altura irregular, uns baixos outros altíssimos, em escadarias que nunca mais acabam. Ao fim de 10 minutos começei a pensar que os conquistadores espanhóis tiveram alguma razão, os incas eram uns filhos da p€#@. Isto tudo debaixo de chuva. O Carlos ainda nos tentou convencer que era orvalho mas não, definitivamente chuva. Não bastava a dificuldade inerente ao caminho, ainda tinhamos que nos preocupar com piso escorregadio... Depois de 15 minutos a tropeçar no poncho e a morrer de calor no interior resolvi só ficar molhada e paciência. No entanto, depois de aquecermos conseguimos entrar num bom ritmo, e a subida levou apenas 45 minutos. Ainda tivemos a oportunidade de ver um veado pastando ao lado do caminho, natureza no seu melhor.
Pausa obrigatória para recuperar o fôlego (ainda eram 3800m de altitude), fotografia obrigatória e bolachinha do reconforto. Iniciamos então o percurso até Sayaqmarka, próximo objetivo, a hora e meia de distância (sim, porque os guias nunca falam em km, medem a distância em tempo, o que é altamente irritante). Neste trajecto o caminho começou a ser novamente envolvido pela selva. Degraus para cima, degraus para baixo, com a trilha sonora de pássaros e insectos para nos acompanhar, fomos fazendo o caminho. Depois de no dia anterior ter visto mais beija-flores do que em toda a minha vida, vi o maior de todos, de peito azul e asas verdes. Fabuloso.
Uma vez chegando às ruínas de Sayaqmarka, o que é que nos esperava? Pois é, mais uma escadaria anti-invasores, íngreme, com degraus de 20 cm de largura. Subida cuidadosa, encostados à montanha, porque do outro lado só havia espaço e bem mais abaixo selva.
Sayaqmarka parece ter sido uma fortaleza, um entreposto comercial, local religioso e basecamp para os incas que realizavam a peregrinação anual até Machu Picchu. Fica no topo de uma montanha, dominando todos os quadrantes. Imponente. E aí pudemos ver que o caminho inca não era apenas um, mas sim centenas, o que nós fazemos é apenas aquele que se considerou mais apto para conservação. Das traseiras das ruínas, na direção oposta daquela por onde chegamos, observa-se o início de uma escadaria esculpida na montanha, coberta pela vegetação. Que vontade de seguir esse caminho... Infelizmente, o panamá e o chicote ficaram na mochila grande, no hotel em Cusco.
Depois do momento cultural, mais meia hora de caminho até ao acampamento, passando por umas pequenas ruínas cujo nome já não me recordo.
Por esta altura o caminho inca tornou-se aquilo que eu imaginava: um pequeno caminho empedrado, quase escavado na montanha, com precipício do outro lado caindo sobre a floresta subtropical, com curvas e contra curvas, e um tecto de vegetação. O principal problema era conseguir apreciar a paisagem e ao mesmo tempo ver onde punha os pés...
Quando chegamos ao campo de Chaquiqocha a tenda comunitária/cozinha já estava montada, mas ainda faltavam 30 minutos para o almoço (afinal, eram 11 da manhã). Mas devido ao frio e chuva miudinha optamos por ficar sentados "à mesa", a descansar as pernas e aquecer o corpo até ao almoço.
Desta vez, dado o longo caminho e tempo desagradável, não houve espaço para sesta
Meia hora a subir até ao terceiro passo, Phuyupatamarka, a 3670m de altitude, e depois, a partir daí, sempre a descer. Começavam as infames "gringo killers", duas horas e meia de degraus maldosos, famosos por destruir joelhos e almas. O que ninguém diz é que este trajecto é um dos mais bonitos do caminho, feito sempre no meio da selva, passando por paisagens lindíssimas e até por um túnel inca (uma parede aproveitada da falha natural da pedra, a outra escavada, e os degraus escavados na pedra).
Começamos devagarinho, em respeito aos joelhos lesionados. O quarto elemento resolveu aprender com os porteros, e sair galgando degraus escadaria abaixo. Chegou inteiro ao destino, uma hora antes do resto. Aliás, os porteros desciam as escadas de um modo perfeitamente assustador, a uma velocidade incrível, mal pousando os pés nos degraus, num embalo que dificilmente seria traçado caso necessário. Ao grito "portero!" todos nos encostavamos ao lado da montanha, e os víamos a passar. Sempre que passavam os nossos, claque e gritos de apoio.
Muito devagarinho, porque não bastava a irregularidade dos degraus também tinhamos de ter em conta o factor chuva, fomos descendo calmamente. A envolvência era demasiado bonita para nos fixarmos apenas nos pés. Apesar de nos termos cruzado com outros grupos, a grande parte da descida foi feita com apenas o nosso pequeno grupo a tomar conta do caminho.
E assim chegamos ao último ponto de encontro por volta das 15. O guia vinha em modo carro vassoura, descendo calmamente a ouvir música e na conversa com os outros guias , mas apanhava-nos sempre nos 10 minutos finais do trajecto. Encontramos o quarto elemento, vimos umas ruínas ao longe, na realidade apenas terraços agrícolas,e o Carlos decidiu por nós que não valia a pena passar mais perto, tendo em conta que ali tinhamos um atalho utilizado pelos porteros que nos levava directamente ao ultimo acampamento. As pernas cansadas agradeceram.
Para não variar, quando chegamos a Winaywayna às 16h já estava tudo pronto, e fomos recebidos com o caloroso aplauso dos porteros, por termos ultrapassado mais uma etapa. Aqui, organizados à volta dos servicios estavam vários campos, sendo o local onde todas as equipes dormem na última noite. Uma aldeia de campanha, montada e desmontada em poucas horas. Os meninos corajosos foram tomar banho de água fria nos servicios, as meninas esquisitas ficaram-se pelos toalhetes.
Rapidamente chegou a hora do "tea", seguido de um animado jogo de Dobble. A algazarra foi tanta que os porteros vieram espreitar, e acabaram por jogar também conosco. É a vantagem de um jogo baseado apenas em imagens, torna a explicação fácil apesar da barreira linguística.
Mais um jantar saboroso, com sabor a final de férias. Tinhamos quase completado o caminho inca, ultrapassado a subida da Mulher Muerta e a descida das Gringo Killers. Com esforço, sem dúvida, mas amplamente recompensado pela experiência.
No final do jantar, a típica cerimónia de despedida da equipe foi na verdade um dois em um, em que fomos finalmente apresentados formalmente aos porteros. Gente honesta, do campo, de uma vila a norte de Cusco, a 4000m de altitude, durante a época turística trabalham como porteros, no resto do ano são agricultores. Pelo trabalho pesadíssimo que fazem ganham 300 soles. Cada um tem uma função específica, carregando uma parte do equipamento: um leva a tenda comunitária, outro as tendas pessoais, vários deles levam os víveres, e outro todo o material da cozinha. Depois do jantar agradeceram-nos por sermos um bom grupo, que respeitou as horas (muito importante para eles). E nós agradecemos por terem tratado de tudo para que pudéssemos preocupar-nos apenas com o caminho. E demos uma boa gorjeta, porque realmente foram impecáveis.
No último dia os caminhos separam-se: nós seguimos para Machu Picchu e os porteros vão apanhar o comboio de regresso a Ollantaytambo noutra povoação. Para que eles cheguem a horas ao comboio, e para que nós cheguemos cedo ao controle antes de entrar em Machu Picchu, há que acordar bem cedo. Tipo três e meia da manhã.
Portanto depois da nossa cerimónia de encerramento, lavar os dentes com água fervida, fazer o xixi da noite no wc ecológico (que é como quem diz na natureza) e enrolar no saco cama, que às 19:30 já íamos dormir à pressa.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Inca trail, part III: Stairway to heaven (11/06/16)
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