quinta-feira, 16 de junho de 2016

Inca trail, part II: Judgement Day (10/06/16)

Uma das várias vantagens de ganhar um salário é por norma ter dinheiro para pagar um hotel nas férias. Portanto gastar o dinheirinho que tanto custou a ganhar a pagar a pessoas para me obrgarem a um esforço físico para além da minha condição e ainda por cima dormir em tendas é um contrasenso. Mas vale a pena quando se acorda e vê a paisagem fabulosa com que fomos brindados hoje: o monte Veronica com o seu gelo eterno (vamos ver por quando mais tempo) no topo, cėu azul, e um filho da mãe de um galo que não parou de cantar desde as quatro e meia da manhã.
Às cinco e meia da manhã Jorge, o cozinheiro, acordou-nos com matte de coca deixado à porta da tenda, para dar energia para o dia. Sem água quente, tomamos banho de toalhetes. Neste caminho não se pode ser muito esquisito... A cheirar a bebé seguimos para o pequeno-almoço, para não variar reforçado. Quando saímos a nossas pequena citadela já tinham sido desmontada.
Um pouco a medo, lá começamos o trajecto do dia às seis e meia da manhã, a infame subida até ao Paso de la Mujer Muerta, a 4200m de altitude. Quatro horas e 6 km a subir. A primeira hora foi tranquila, a andar devagar e respirar com calma. O primeiro troço ainda passava por algumas populações, cada vez mais raras. Aqui só se chega e sai a pé ou de burros, e o maior entretenimento parece ser ver os parvos que pagam para caminhar a passar.  Em uma hora de subida aceitável chegamos a Ayapata, outra zona de acampamento, e fizemos a primeira paragem do dia. Dez minutos, nada de mais, só beber uma aguinha, reajustar os sapatos.
Aqui o nosso guia Carlos nos deu indicações sobre o troço seguinte, até Llulluchapampa. A subida começava a ser mais íngreme, e composta de degraus. Para ele, a pior parte da subida (conversa de guia, como veremos mais adiante). Tempo esperado: duas horas. Foi aí que a cara metade resolveu experimentar mascar as folhas de coca que nos tinham recomendado, e que os porteros mascavam incessantemente. Doping, portanto. O Carlos lá explicou como se fazia uma bolinha com as folhas, e ele iniciou a subida com mais energia.
Entusiasmados com o sucesso do primeiro troço, seguimos caminho. Fomos nos afastando da população e começando a subir no meio de vegetação, com a luz da manhã a espreitar entre a folhagem, temperatura fresca. O caminho nesta área parece saído de um filme do Indiana Jones: escadarias de pedra perdidas no meio da selva. Sempre acompanhados pelos tributários do rio Urubamba, com o som da água a correr a ajudar a refrescar.
Neste trajecto as coisas começaram a complicar. Subimos sempre devagarinho, eu sempre com medo de um piripaque semelhante ao do Colca. Precisamos de umas quantas paradas estratėgicas (momento para aproveitar a paisagem e tirar fotos), e uma paragem oficial de 10 minutos, com direito a Oreos para dar energia. Aí já começavamos a ver mais gente, o que não ocorreu na primeira parte. Fomos ultrapassando e sendo ultrapassados várias vezes pelo caminho. E num tempo fabuloso de hora e meia chegamos a Llulluchapampa.
Mesmo antes de chegar, fomos surpreendidos por llamas a pastar alegremente ao lado do caminho. Segundo o guia, são os animais de estimação das duas pessoas que moram em Llulluchapampa, daí não se incomodarem com as pessoas.
Neste campo paramos à séria, meia hora. Esvaziamos parcialmente as mochilas, comendo chocolates, Oreos, frutos secos. Compramos água. E quando prepadados, encaramos o inimigo de frente: a última subida do dia, uma hora e meia até aos 4200m, o famoso Paso de la Mujer Muerta. De onde estavámos era possível ver as pessoas pequeninas à distância, lá em cima. E o trajecto para lá chegar.
Dada a boa experiência da cada metade, eu resolvi experimentar também as folhas de coca. O sabor é semelhante ao do matte, mas não me orientei com aquilo. Mastiguei demasiado e em 2 segundos tinha o equivalente a uma pastilha gorila quando se está a desfazer. Lixo, não aprovado.
Começamos a subir bem bem devagarinho. Passados alguns minutos o nosso quarto elemento chegou à conclusao que se cansava mais assim, e ligou o turbo. Só o voltamos a ver no topo. Para nos, o animal xamã era a tartaruga artritica. Um passinho pequenino depois do outro. A subida, para além da inclinacao e dos degraus, ainda leva com o sol directo. Parando muitas vezes para água e recupera o fôlego fomos subindo, um metro de cada vez. Enquanto isso eramos ultrapassados por porteros com 25kg nas costas, a conversarem alegremente e a nos darem palavras de apoio (penso eu, a maioria fala Quechua, mas pelos sorrisos e gestos vou só assumir que sim).
E ao fim de uma hora e quinze, os ultimos 50 metros. Terriveis. Pensei que não aguentava. Com o quarto elemento no topo das escadas a gritar palavras de encorajamento consegui arrastar-me aqueles ultimos degraus. Excruciante.
Primeira sensacao: frio!!!! Depois finalmente apreciar a vista. De um lado, todo o caminho que fizemos, com a Veronica ao fundo; do outro, um vale misterioso e verde, recoberto em neblina. Onde estavámos as nuvens passavam por nós.
Depois de 3 minutos a apreciar a beleza natural, atacamos os doces. Nunca uma bolacha me soube tão bem. Recuperados, passamos às inevitaveis fotos. E em quinze minutos começamos a descida.
Até aqui o caminho inca não é na realidade o caminho feito pelos incas, mas sim um caminho utilizado pelas populações locais. Mas a partir da Mujer Muerta estamos no verdadeiro caminho inca.
Descemos devagarinho, na conversa, em respeito aos dois joelhos lesionados do grupo. O quarto elemento, que não quis a coca mas deve ter arranjado anfetaminas com outro grupo largou à frente em passo de corrida. A descida também era envolvida por uma bonita paisagem silvestre, com montanhas a ladearem a descida para o vale.
Em duas horas, um pouco mais do que o esperado, chegamos ao acampamento. Desta vez uma coisas em grande, com os vários grupos lado a lado, cada um no seu terreno. Nós, pobrezinhos, estavámos no fundo da descida. No entanto, mais perto do wc. Fomos recebidos pelos porteros com um copo de chicha morada e aplausos simpaticos, e com o acampamento montado. O almoço saiu quase instataneamente, sopa e bife. Depois, uma merecida sesta.
Antes do "tea", às cinco ainda tivemos tempo para um momento "Africa minha", com a intrépida companheira de viagem a lavar o cabelo do quarto elemento com bacias de água, ele de longe o mais incomodado com a falta de banho, sob o olhar espantado dos guias e porteros da zona. Principalmente porque estava a começar a chover...
Mais uma vez pipocas e torradas, seguido de um jogo disputado de Dobble na tenda comunitaria (conseguimos ensinar o guia a jogar também). Nem nos demos conta que já era hora de jantar. Refeiçåo rapida mas saborosa, seguido de distribuição de "garrafas de água quente" (água fervida para nos aquecer na tenda, que hoje é a noite mais fria, a 3600m, e que amanha serve para beber). E saímos rapidamente da tenda comunitária/cozinha, pois aí dormem os porteros. E fomos para as tendas dormir também, que amanhã é o dia mais longo, 16km, incluindo os famosos "gringo killers".

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