Apesar da ausência de horário de despertar, o madrugar já está enraizado. Acordei cedo e esperançosa, pedindo aos deuses o milagre da água quente. E as minhas preces foram ouvidas. Depois de meia hora a derreter no chuveiro, sentia-me nova. Pronta para mais 21 km. Quer dizer, depois do pequeno- almoço.
Tendo em conta o meu faniquito no canyon, e a dificuldade da cara metade em dormir por sensação de falta de ar, resolvemos começar a acetazolamida nessa manhã. 125mg + 125mg, de acordo com as indicações do CDC. The side effects remain to be seen.
O passeio pela cidade foi muito curto. O facto do Lonely Planet ter apenas 4 entradas acerca do que fazer em Puno diz muito sobre a cidade. Passeamos pela Plaza de Armas, entramos na catedral (e saímos logo, estavam a meio da missa), e pronto. Metade das vistas visitadas em 10 min. Partimos então para a terceira entrada, la Casa del Corregedor, edifício do século XVIII agora transformado em café e lojas de comércio justo. O cafezinho era super agradável, com um pátio solarengo, onde aproveitamos para matar tempo, tratar das reservas de hotel para Cusco e pôr gelo no derrame articular do joelho da intrépida companheira. Saímos por volta das onze, à procura de uma loja de material ortopédico (a brigada do reumático precisava de joelheiras), seguindo as supostas instruções da empregada do bar. Não encontramos nada no local indicado por ela, mas acabamos por encontrar uma farmácia, que infelizmente só vendia joelheiras muito básicas, que não pareciam resistir ao caminho inca. Pity .
Almoço rápido, e ao meio dia fomos recolhidos no nosso hostal para partir para o tour das ilhas flutuantes. No caminho passamos pelo mercado de sábado, que parece vender tudo e mais alguma coisa (vi pelo menos duas bancas de detergente para a roupa). Ruas tristes, pobres. Muita gente vestida com as roupas tradicionais, de aspecto real e não forçado para os turistas. No porto fomos passados do motorista para o guia, que se encarregou de afastar as outras ofertas de tour.
O barco era simples, com cabine com lugares sentados e banquinhos no tejadilho. Ouvimos uma breve explicação sobre o lago, sua flora e fauna, e depois subimos para apreciar a vista. A cidade estende-se como uma meia lua à volta da baía do lago. De longe, como de perto, parece precária e poeirenta. À nossa frente, uma estrada aquática aberta entre os juncos. Em meia hora chegamos às ilhas flutuantes dos Uros, e o barco acostou numa delas. A sensação inicial de pisar o "solo" foi estranha, porque cede um pouco em cada passada, como uma lama seca. A ilha tinha cerca de 20m2, e cinco palhotas, pertencentes a cinco famílias. Só se viam mulheres e criancas, que inicialmente não estavam muito interessadas em nós. Enquanto nos sentamos numa espécie de quadrado para ouvir falar como as ilhas são feitas, e como se vive aí, as senhoras prepararam atrás de nós várias banquinhas de venda. A "presidenta" da ilha falou conosco no seu dialecto ayamara (uma língua pré-inca), traduzida pelo nosso guia. Foi nos dada as boas vindas, e fomos convidados a conhecer as palhotas, dois ou três para cada uma. Todo o discurso e atitude me pareceram altamente treinados. Dentro da palhota, um cobertor no chão, um armário, roupas penduradas nas paredes e um plasma gigante. O que não aliviou o sentimento de que tudo aquilo que víamos era simplesmente para "inglês ver". Depois levou-nos à sua banquinhas e fomos bullied/guilt tripped a comprar uma capa de almofada. Seguidamente as senhoras fizeram um espetáculo para nós, cantando em ayamara, quechua, espanhol, francês e inglês. Espetáculo algo deprimente, com as senhoras claramente pouco motivadas. Depois fomos levados num barco de junco construído para transportar turistas, chamado Mercedes-Benz, até à ilha seguinte. Por 10 soles por cabeça, não incluídos na tour. Na ida foram duas senhoras a remar (ao que parece os homens passam o dia fora a pescar), mas depois nos apercebemos que era empurrado por uma lancha na volta. Vinte minutos na ilha restaurante, e fomos levados de volta à Puno. Por muito interessantes que sejam as ilhas e as suas gentes, saímos com a ideia de que tinha sido posto em cartaz um espetáculo para nós. Bem, todas as viagens tem de ter o seu tourist trap.
De volta a Puno, resolvemos que se não havia muito para ver, deveriam haver locais para apreciar. E munidos da lista do Trip Advisor, fomos passar a tarde no Café mais bem cotado da cidade, Café Buho, e marcamos jantar no La table del'Inca, #1 de Puno.
No café, entre chocolates quentes e bolinhos, revimos os relatos interneticos do caminho inca. Nomeadamente procurar no Google "inca trail with bad knees". Dado o estado lastimável do grupo, começamos a ponderar se o caminho inca era uma boa ideia, com algumas admissões que se o €€ não tivesse já sido transferido pensavam duas vezes. Com todo o amor e carinho do mundo lhes disse que os adorava a todos, mas que se fosse preciso ia sozinha, a mancar e arrastar as pernas, com uma botija de oxigénio nas costas. Após revermos melhor as descrições, tomados de nova coragem como grupo, dissemos "Hell yeah, vamos a isto!" E depois fomos dormir uma sesta antes do jantar porque estamos velhos.
Por esta altura o mal de altitude começou a afectar a minha intrépida companheira de viagem. Tonturas, mal estar, sensação de falta de ar. Uma cartada animada antes do jantar não foi sufciente. Fomos jantar com um elemento em baixo de forma.
O restaurante, cozinha franco-peruana, era bastante agradável (e outra vez um tanto ou quanto fora do budget mochileiro, mas a vantagem de poupar nuns lados é poder gastar em outros). O dono, um francês bem apessoado, tentava manter as aparências, mas a única pessoa de fato era ele. Todos os clientes estavam de traje caminhante/confortável. Claramente a clientela consiste em turistas e não em locals. Optámos pelo menu com direito a entrada, prato principal e sobremesa. A minha intrépida companheira de viagem ficou-se pelo chazinho de "muna", uma espécie de poejo que segundo a simpática empregada ajuda com o mal de altitude. E pela acetazolamida que lhe demos.
O jantar estava lindo, embora deixasse um pouco a desejar no que diz respeito à sabor. O ceviche estava bom, mas a minha truta estava demasiado inócua. Sobremesa boa, como tem sido o hábito.
A caminho do hostal a minha intrépida companheira já se sentia melhor, mas passado pouco tempo reclamava de sentir a face encortiçada, primeiro à volta da boca e depois na totalidade. Primeira vítima das parestesias da acetazolamida...
Ao chegar, fomos buscar a roupa que tínhamos posto a lavar no dia anterior. Primeiro momento WTF: o saco de viagem do quarto elemento, onde tinha ido a roupa suja, vinha imaculado e embrulhado em plástico. Segundo, quando abrimos os sacos vimos que todas as peças de roupa tinham um ponto de lã colorida passado. Mesmo as meias e roupa interior. Ok, boa ideia para identificar de quem era a roupa. Mas podiam passar o ponto nas etiquetas ou numa zona discreta, e não nas golas. Uma hora a arrancar lãzinhas para fazer a mala antes de dormir. E o mistério do costume? Porque é que a mochila parece ter mais espaço de arrumação no início da viagem?
Enfim, malas prontas para amanhã de manhã, para chegar ao pouso final da viagem: Cusco.
domingo, 5 de junho de 2016
Smoke on the water, tourist trap on the island (04/06016)
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