Ainda mal refeitos da aventura do Caminho Inca, acordamos novamente de madrugada para sair para o tour de Manu, na selva. De manhã o entusiasmo não era muito. Ainda por cima porque já sabíamos que o dia iria consistir numa viagem de 10horas de carro. Esta saída tão em cima da chegada não era ideal, mas era o possível. Dadas as limitações de tempo era a única oportunidade de ver bichos.
O nosso guia Miguel veio buscar-nos às 6h, acompanhado pelo motorista e cozinheiro. Pelos vistos temos sempre entourage...
As primeiras três horas de viagem não foram particularmente interessantes. Saímos de Cusco e seguimos pelas montanhas da cordilheira dos Andes, paisagem entre agrícola e árida, passando por várias povoações. Tivemos uma pequena intercorrência a meio, uma estrada cortada por obras, mas que foi resolvida usando um atalho de terra batida pelo meio das montanhas.
Primeira paragem em Ninamarka, um povoado pré-inca, para ver as chullpas, pequenos edifícios funerários que pareciam umas torres do Portugal dos Pequeninos. O guia sentiu a nossa ausência de entusiasmo e rapidamente seguimos viagem.
Continuando a saga dos e-reader, nesta viagem o da cara metade ficou esquecido no quarto do hotel em Cusco, e o da intrépida companheira de viagem estava a dar problemas, mas na tentativa de os resolver o quarto elemento reiniciou o aparelho, apagando o conteúdo. O meu Kindle ficou na mochila em Cusco de propósito, que as escritas tem ocupado o tempo livre. Acho que vamos mesmo ter de falar uns com os outros na selva. Ou jogar cartas.
A paragem seguinte foi num vilarejo chamado Puercatambo, onde nos deixaram a tomar o pequeno almoço e foram ultimar as coisas para a ida à selva. Depois de comer e já aborrecidos por estar no restaurante resolvemos dar uma voltinha. Tinha um mercado de rua vendendo frutas e legumes, uma ponte antiga engraçada, e muitas mulheres vestidas de forma tradicional, com as saias, tranças, sandálias e meninos ou cargas às costas seguros por panos coloridos amarrados à volta dos ombros. Em cinco minutos decidimos que o lugar era uma seca, e ficamos a maldizer a nossa vida e a ver as pessoas a passar ao pé do carro, people watching (num bom sítio, estávamos ao lado da câmara municipal e o trânsito pedonal era intenso). Quando o guia finalmente apareceu e nos convidou para dar uma volta pela cidade e ir ao museu ouviu-se um suspiro colectivo mas lá nos arrastamos. E só para nós mostrar que somos uns meninos mimados da cidade grande, para lá da ponte havia realmente uma série de ruas e praças engraçadas, e o museu era realmente interessante.
Puercatambo fica a meio caminho entre Cusco e o Amazonas, e desde sempre serviu de entreposto comercial e cultural entre as culturas andinas e da selva, forjando uma identidade muito própria. É também muito conhecida pela festa da Virgen del Carmen, quando se realiza uma procissão pela aldeia com centenas de dançarinos interpretando mais de 30 danças locais, que recontam acontecimentos importantes da vila e da região desde o século XVI. Para isto tem uma série de disfarces e roupas, e pó que vimos no museu, o resultado é espetacular. Pronto, devidamente humilhados pela nossa falta de visão voltamos para a van e seguimos viagem.
Mais duas horas de caminho até chegarmos à entrada da Reserva da Biosfera de Manu. De um lado para o outro da montanha a paisagem muda, e de árida passa a verde. Do miradouro onde paramos era possível ver as nuvens que se levantam da zona do Amazonas por um fenómeno de evapotranspiração (palavra do guia, não minha), e recobrem a parte inicial da vegetação, dando-lhe o nome de bosque nublado.
A viagem seguiu rodeando as montanhas, numa estrada cada vez pior. O asfalto deu origem à terra batida, e mais tarde a lama. Dois sentidos onde mal cabe um carro. Cada vez que vinha um carro, ou mais frequentemente carrinha ou caminhão, era preciso fazer uma ginástica acrobática. Aqui não conhecem o conceito de berma ou rail de segurança, portanto vamos sempre olhando a ribanceira olhos nos olhos. A vegetação circundante foi se tornando cada vez mais frondosa, e o clima mais fresco e húmido. Paramos para almoçar por volta das duas, à beira da estrada, ao lado de uma queda de água linda, com direito a mesa montada de frente para a vegetação.
Daí seguimos caminho, e cerca de meia hora depois, paramos. O guia deu sinal para sairmos com os binóculos, e apontou-nos na direção de um ramo. E começamos então a ver os bonitos pássaros tropicais das fotos publicitárias. Um tangará de barriga amarela, e um verde. Fomos parando várias vezes, sempre que "spoteavam" um bichinho. O facto do motorista também estar à procura de aves assustou-me um pouco.
Não sei como conseguem fazê-lo. Com o carro em andamento um deles dá sinal, o carro pará, e saímos para ver aves escondidas na copa das árvores, de tal modo que temos alguma dificuldade em encontra-las com os binóculos. Olho muito treinado, imagino. Paramos várias vezes, para ver aves (uma espécie de motmot - um pássaro grande de coloração azul iridescente e verde, com apenas duas penas na cauda; andean Guam - parece um faisão voador castanho; um bufo a dormir, lindo) e ainda que apenas um vislumbre, macacos.
À nossa volta a vegetação transformou-se, árvores de copa alta que quase não deixavam espreitar o sol. E por esta altura já estávamos no meio da neblina, o que ao contrário de Macchu Picchu, tornava a experiência mais interessante. Relativamente à estrada, como a cada curva havia um pequeno curso de água, a determinada altura devem ter decidido que não valia a pena construir pontes, portanto a água simplesmente corre sobre a estrada. Não imagino como isto possa ser na altura das chuvas...
E finalmente, por volta das seis, todos já estourados, chegamos ao nosso pouso da primeira noite, o Bambu Lodge. No escuro parace ser engraçado. Casas de bambú, elevadas do chão, sem paredes, apenas rede mosquiteira (adeus privacidade) e casa de banho. Tudo muito limpo, e sem bichos. Não me levem a mal, eu vim para a selva para apreciar a bicharada, mas não gostava de dormir com ela. Mesmo assim, vi uma baratinha esgueirar-se para debaixo da cama, facto que resolvi ignorar.
Antes do jantar aproveitamos para inaugurar um novo jogo, Backpacker (hehehehe, get it?) com o quarto elemento, enquanto a intrépida companheira de viagem descansava um pouco. Depois jantar na casa comunitária, sopa de abóbora e massa com frango, cortesia do cozinheiro Luís.
No final, fomos terminar o jogo no nosso quarto, enquanto a intrépida companheira de dirigia para o seu. Assim que acendeu a luz ouviu-se um grito, e veio a correr para o nosso quarto. Tinha encontrado uma barata enorme pendurada no mosquiteiro da cama. Veio procurar apoio moral. Eu resolvi manter a calma e retirar os meus pertences do chão. E foi aí que descobriram (eles, não eu, que fiquei quietinha sentada em cima da cama) dois baratões na casa de banho, prontamente exterminados pela cada metade. Foi quando decidi dormir de luz acesa e sem baixar o mosquiteiro. Mas depois de ver a cara metade dormir o sono dos justos com o mosquiteiro colocado, e confirmar que este não tocava no chão, resolvi baixar também o meu. E passado um tempo, cheia de coragem, até apaguei a luz para dormir.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Welcome to the jungle (13/06/16)
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